│Unidade 1
Capítulo 7 - “A matrix está em toda parte...”: ideologia e visões de mundo
O que será que anda na cabeça de nossa gente?

Nossa vida cotidiana é recheada de ideias, valores, concepções sobre determinados temas e fatos, e estes orientam nossas atitudes e comportamentos. Vejamos exemplos tirados das páginas de alguns jornais e revistas de grande circulação nacional, nos quais se publicam frases de e sobre pessoas famosas, e às quais retornaremos ao final deste capítulo:

“Por que as pessoas entram na faculdade? Para arrumar um emprego. Eu já tenho um trabalho.” (Avril Lavigne, cantora pop canadense, explicando por que não quer fazer graduação, em entrevista ao jornal Folha de São Paulo em 12 de setembro de 2005).

“Cazuza usou drogas, traficou e é considerado um rebelde, um poeta sensível, um artista, um super-herói. Se ele fosse pretinho e morasse no morro, seria um bandido e teria sido preso.” (Siro Darlan, Juiz da 1ª Vara da Infância do Rio de Janeiro. Revista Época em 19 de julho de 2004)

"Só não vou te estuprar porque você não merece". (Jair Bolsonaro, deputado federal, dirigindo-se a Maria do Rosário, também deputada federal, em 09 de dezembro de 2014).

“Estão enviando gente que tem muitos problemas, estão nos enviando seus problemas, trazem drogas, são estupradores e suponho que alguns até podem ser boa gente, mas eu falo com agentes da fronteira e me contam a verdade”. (Donald Trump, multimilionário norte-americano, ao se referir ao México e ao povo mexicano no discurso em que anunciou sua candidatura à presidência dos EUA, em 16 de junho de 2015).

"Precisamos de um ator jovem, na faixa dos 20/25 anos, muito bonito. A direção gostaria que ele fosse negro, então o ideal seria ter um ator negro e muito bonito, mas conscientes do grau de dificuldade, faremos teste também com os bons atores, lindos, que não sejam negros."

(Anúncio da agência +Add Casting, contratada pela Boutique Filmes para a série de ficção “3%”, da Netflix – Outubro de 2015).

"[...] calorias que "deveriam" ser ingeridas para alcançar o corpo perfeito: 800, 1.000 calorias diariamente. [...] no gueto de Lodz, em 1941, em pleno nazismo, os judeus se alimentavam de rações que tinham de 500 a 1.200 calorias por dia". (Ana Luísa Fernandes e Priscila Bellinio, em reportagem sobre a ditadura da estética da magreza, citando o livro “O Mito da Beleza”, de Naomi Wolf. Revista Superinteressante - 08 de julho de 2015).

Figura 1(charge)

Estas e outras centenas de frases, que podemos ler toda semana em diversos veículos de comunicação, vêm carregadas de ideias sobre a sociedade, a realidade do mundo e as relações sociais entre os indivíduos. O que eles dizem pode estar na própria frase ou por trás dela. Podem ser metáforas, expressar preconceitos, valores ou um conjunto de ideias sobre determinado assunto. O que vamos estudar aqui é justamente esse conjunto de ideias que chamamos de ideologia.

Marilena Chauí assim define a ideologia:

É um conjunto lógico, sistemático e coerente de representações (ideias e valores) e de normas ou regras (de conduta) que indicam e prescrevem aos membros da sociedade o que devem pensar e como devem pensar, o que devem valorizar e como devem valorizar, o que devem sentir e como devem sentir, o que devem fazer e como devem fazer. Ela é, portanto, um corpo explicativo, de representações e práticas (normas, regras e preceitos) de caráter prescritivo, normativo, regulador (...) (1980, p. 113).

É claro que, além desta, encon­tramos ao longo da história da Sociologia mais algumas definições de ideologia.

O conceito de ideologia foi, literalmente, inventado por um filósofo francês chamado Destutt de Tracy, que escreveu, em 1801, o livro Elementos da Ideologia. É um tratado enorme que, hoje, quase ninguém mais lê. Segundo este filósofo, a ideologia seria o estudo científico das ideias e as ideias são o resultado da interação de um indivíduo com seu meio ambiente.

Alguns anos depois, em 1812, Tracy e seus seguidores entraram em conflito com Napoleão, que os chamou de “ideólogos”, no sentido bem pejorativo da palavra, ou seja, como pessoas que fazem abstração da realidade e que vivem especulando sobre o mundo. Como Napoleão era a pessoa mais importante na França daquela época, este sentido da ideologia ficou bastante popular.

Napoleão Bonaparte, no século XIX, se referiu a um grupo de filósofos franceses como “ideólogos”, ou seja, pessoas que viviam especulando sobre o mundo. Quadro: Napoleão atravessando os Alpes (c.1800) de Jacques Louis David.

Em 1846, Karl Marx dá outro sentido para o termo ideologia. Para ele – e Friedrich Engels, com quem escreveu a respeito desse tema –, falar em ideologia significa se referir às “falsas representações” que os homens apresentam sobre o mundo que os cerca. Dizendo ainda de outra forma, Marx e Engels afirmaram que, diante da tentativa dos homens de explicar a realidade, é necessário considerar as formas de conhecimento ilusório que levam ao mascaramento dos conflitos sociais (cf. MARX; ENGELS, 1979). Segundo Marx e Engels, portanto, a ideologia adquire um sentido como instrumento de dominação de uma classe social sobre outra ou de um grupo social sobre outro. Ideologia seria também uma falsa consciência da realidade.

Um dos seguidores das ideias de Marx, o revolucionário russo Vladimir Ilitch Uliânov, o Lênin, deu outro sentido para o termo ideologia. Segundo ele, ideologia era qualquer concepção da realidade social ou política, vinculada aos interesses das classes sociais, ou seja, cada classe social teria a sua própria ideologia (cf. LÊNIN, 2006).

Assim, como podemos ver, ao longo do tempo, a palavra vai mudando de sentido.

Nos anos de 1920, outro significado surge para o termo, segundo a reflexão do filósofo italiano Antonio Gramsci. Ele tinha uma concepção bastante interessante quando dizia que as ideologias “(...) organizam as massas humanas, formam o terreno sobre o qual os homens se movimentam, adquirem consciência de sua posição, lutam etc.” (GRAMSCI, 1989, p. 62-63).

Segundo Antonio Gramsci (1891 – 1937), o conceito de ideologia significa também uma concepção de mundo.

Para Gramsci, o conceito de ideologia significa também uma concepção de mundo manifestando-se implicitamente na Arte, no Direito, na atividade econômica, em todas as manifestações da vida. E, de acordo com o pensador italiano, tal conceito tem por função conservar a unidade de toda a sociedade e dos grupos.

Por fim, o sociólogo alemão Karl Mannheim apresentou um novo sentido para o termo ideologia com a sua obra Ideologia e utopia, publicada em 1929.

Mannheim, primeiro, fez uma distinção entre os termos ideologia e utopia. Ideologia seria um conjunto de concepções, ideias e teorias que orientam os indivíduos para estabilizar, legitimar ou reproduzir a ordem das relações sociais dos homens. Ou seja, todas aquelas ideias, concepções ou teorias que têm um caráter de conservação da realidade social. Utopia seria o contrário, ou seja, ideias, concepções ou teorias que aspiram à construção de outra realidade social, que ainda não existe. Mas, Mannheim traz outra classificação para o termo ideologia: a ideologia total e a ideologia estrita. Ideologia total seria o conjunto de formas de pensar, estilos de pensamento, pontos de vista, que representam interesses de grupos ou classes. A ideologia estrita é a forma conservadora que a ideologia total pode se tornar (cf. MANNHEIM, 1976).

DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos, se não fora
A presença distante das estrelas!
Mário Quintana (1906 - 1994)

Figura 4(charge)

Vamos utilizar uma interpretação da filósofa brasileira, Marilena Chauí (1980), para explicar, em outras palavras, o conceito de ideologia e ver como ele pode ser um instrumento de imaginação sociológica. Através de algumas características da ideologia como fenômeno social e do estudo de exemplos concretos, podemos descrever sua importância para entendermos melhor, em nossa vida cotidiana, como a ideologia opera e funciona.

No quadro a seguir, temos uma breve síntese da ideologia. Converse com seus colegas e com o(a) professor(a) e tente encontrar outros exemplos de acordo com as características da primeira coluna.

Ideologia
Característica O que faz Exemplo
Prescrição de normas Orienta as ações humanas.Modela os interesses humanos.Diz o que se deve fazer, pensar ou expressar. A ideia de monogamia, nas sociedades ocidentais, faz com que homens e mulheres a considerem como a única forma possível de relação existente no mundo.
Representação da realidade Dá sentido à realidade humana.Utiliza-se de símbolos e da criação mental. O conceito pátria ou o sentimento patriótico.
Generalização do particular Trata o específico como exemplo de um fenômeno geral. Todos os alunos de uma turma são iguais.
Inversão da realidade Esconde as reais causas de um fenômeno. O MST não luta pela reforma agrária, mas sim invade terras produtivas.
Naturalização das ações humanas Torna normal e natural aquilo que é histórico e contingente. A desigualdade entre os homens e mulheres é normal. Por isso estas podem ser tratadas de forma inferiorizada.
Reificação da realidade As coisas aparecem com vida própria, ou seja, coisas inertes ganham aspectos naturais, não construídas pelos homens. Os salários não expressam relações desiguais de trabalho.
Na escola todos falam a mesma língua?Na escola todos falam a mesma língua?

No mundo da escola existem pensamentos e sentimentos que, sem percebermos, podem ser caracterizados como ideológicos. Eles podem ser expressos por professores, alunos, funcionários, responsáveis e por diretores ou mesmo podem ser trazidos de fora da escola por esses “atores”.

Vejamos alguns pensamentos e frases recorrentes no cotidiano da escola:

“A melhor prova de que Deus é homem é que se ele fosse mulher não faria a Terra, o Sol, o Universo... Ficaria apenas sentado dando palpites.”

“A função do professor é ensinar, a do aluno é aprender, e só.”

“Professor não pode falar de política em sala de aula.”

“A escola dá oportunidades a todos os alunos de aprenderem as coisas da vida.”

Todas essas frases expressam pensamentos e ideias disseminadas não só na escola, mas em toda a sociedade. Essas frases, como vimos nas características da ideologia, prescrevem normas, representam a realidade e generalizam o particular, além de inverter a realidade, naturalizar e ocultar os fatos.

Na frase, por exemplo, A melhor prova de que Deus é homem é que se ele fosse mulher não faria a Terra, o Sol, o Universo... Ficaria apenas sentado dando palpites – tenta-se naturalizar e generalizar uma determinada condição de inferioridade da mulher.

Prescrever normas é elaborar, repetir e manter a ordem “normal” das coisas. Por isso, dizer que A função do professor é ensinar e a do aluno é aprender, e só, é ignorar que o docente, além de ensinar, pode sim fazer política, reivindicar melhores condições de trabalho. Da mesma forma, o estudante também tem o direito de lutar por melhores condições para o seu aprendizado na escola, ou seja, assim como o professor, ele também pode falar e fazer política. Isto pode significar, necessariamente, se organizar e lutar por melhorias na infraestrutura do espaço escolar, que envolvem desde a exigência de que as carteiras não estejam quebradas, que o telhado não tenha goteiras e que seja oferecida uma refeição de qualidade, até salas de aula refrigeradas, bibliotecas com um bom acervo, computadores com acesso a internet, distribuição de livros didáticos, etc. Não fazer isso – como prescreve a frase citada – é, sim, legitimar, na escola, as condições de desigualdades presentes na sociedade como um todo.

No último pensamento – A escola dá oportunidades a todos os alunos de aprenderem as coisas da vida –, tenta-se ocultar o fato de que a escola, com sua suposta aura democrática, de se apresentar como “igual para todos”, pode contribuir para reproduzir as desigualdades sociais presentes na sociedade. Como isso ocorre? Vejamos.

Alunos com condições diversas de acesso à cultura, ao lazer, aos meios de comunicação têm tendência a obter mais informações e maior formação fora da escola e um desempenho melhor nas aulas. Por exemplo, se um aluno tem como recurso extraclasse apenas a televisão, enquanto outro tem a oportunidade de frequentar museus, bibliotecas, teatros, comprar mais revistas, viajar para diversos lugares etc., é natural que este último assimile mais os conteúdos das aulas de Português, Literatura, História, Geografia, Filosofia e Sociologia, do que o primeiro, que apenas vê a televisão. Neste sentido, quando a instituição escolar trata todos igualmente – ou melhor, quando usa um padrão de linguagem e ensino que está mais próximo daquele que tem maior acesso aos diversos bens culturais – ela acaba por reproduzir ainda mais o aprofundamento das desigualdades.

Aula-debate – A escola dá oportunidades a todos os alunos de aprenderem sobre as coisas da vida?

A reflexão apresentada no parágrafo anterior é uma das conclusões de um importante sociólogo que se dedicou, entre outros temas, a estudar a educação na sociedade capitalista. O francês Pierre Bourdieu (1930–2002) elaborou o conceito de capital cultural para explicar a desigualdade de desempenho entre os estudantes, de acordo com a sua classe social de origem. Em relação ao papel da escola no sentido da manutenção e aprofundamento das desigualdades, Bourdieu, em parceria com o pensador, Jean-Claude Passeron, escreveu em 1970 uma obra que se tornou referência nos estudos da Sociologia sobre a educação, intitulada A reprodução: elementos para uma teoria do sistema de ensino (1975). Nela, Bourdieu e Passeron, ao analisar o sistema educacional francês, demonstraram sociologicamente o papel assumido pela escola no sentido de reproduzir ideologicamente as desigualdades sociais existentes, cumprindo com o seu papel conservador da ordem vigente.

Mas, mesmo sem ter fugido do assunto, voltemos ao foco central da nossa exposição, o conceito de ideologia. Vocês devem concordar que a ideologia, assim estudada, pode ser tornar de fácil compreensão. Na verdade, porém, apesar dela estar presente no nosso cotidiano o tempo inteiro, não é percebida dessa forma como estamos apresentando pela grande maioria das pessoas. O que tentamos fazer aqui – uma reflexão sobre como os homens elaboram ideias sobre este mundo e sobre suas relações com outros homens – não é percebido com facilidade no senso comum. Por este motivo, vamos continuar este nosso esforço de reflexão para mostrar a importância do estudo da ideologia, mas agora recorrendo a um filme bastante interessante e que se tornou uma referência no gênero da ficção científica.

A matrix nossa de cada dia

Na virada do século, a trilogia inaugurada com o filme The Matrix fez muito sucesso entre os jovens. Vamos aproveitar a história do primeiro filme para explicar e exemplificar um pouco mais a questão da ideologia no nosso cotidiano.

Num dos diálogos de Matrix, Morpheus questiona Neo: – Você já teve um sonho, Neo, em que você estava tão certo de que era real? E se você fosse incapaz de acordar desse sonho? Como saberia a diferença entre o mundo do sonho e o real?

A série Matrix, repleta de superefeitos especiais, é uma magnífica aventura cibernética em que a Terra é totalmente dominada por máquinas dotadas de inteligência artificial, que passam a ter controle sobre a humanidade. Os homens e todo o mundo não passam de um software, um programa de computador, uma mera ilusão.

Em outro diálogo entre Morpheus e Neo, este procura a verdade:

Neo: – O que é Matrix?

Morpheus: – Você quer saber o que é Matrix? Matrix está em toda parte [...] é o mundo que acredita ser real para que não se perceba a verdade.

Neo: – Que verdade?

Morpheus: – Que você é um escravo, Neo. Como todo mundo, você nasceu em cativeiro. Nasceu em uma prisão que não pode ver, cheirar ou tocar. Uma prisão para a sua mente.

Depois de estudar o conceito de ideologia, podemos afirmar que vivemos numa matrix? Será que vivemos numa ilusão, como diria Marx? Que tudo é um faz de conta? E que essa ilusão nos aparece como real? Além disso, será que existe alguém que controla a matrix e tem em mãos a programação de nossas vidas?

“Você já teve um sonho em que você estava tão certo de que era real?” (Cena do filme Matrix).

Quando nascemos, recebemos ideias já pré-concebidas pelos nossos pais, pela escola, pelas instituições religiosas etc. É quase impossível contestar certas ideias ou conjunto de ideias. Se fizermos uma analogia de Matrix com a ideologia, veremos que há muitas semelhanças. Mas, vamos devagar!

Muitas vezes, em nossa vida, achamos que os pobres são burros e ignorantes. Que as mulheres são menos inteligentes. Que os negros são inferiores e vieram de um continente atrasado chamado África. E que os jovens que estão cursando o Ensino Médio, certamente, vão conseguir um emprego fazendo um excelente curso técnico ou, dependendo da sua condição financeira, seguir diretamente para a faculdade. Ao final, se não encontrarmos ninguém que conteste essas ideias, esta­remos crentes de que todas essas afirmações são verdades absolutas.

Nós também temos nossa matrix: ela está aqui, como diz Morpheus, está em toda parte, é o mundo que acredita ser real para que não se perceba a verdade.

Não existe uma grande realidade virtual, nem uma máquina que nos controla, mas ideias que nos fazem pensar que o mundo “é assim” e “sempre será assim”. Ou seja, se existem desempregados é porque “esses não são capazes”, se existe violência é porque certos “indivíduos são malvados”, se existem políticos corruptos, “todos são corruptos”, o mundo é feito de indivíduos de “sucesso” que devem dominar “os fracassados”... Enfim, não existe alternativa e é melhor se adaptar ao mundo do que tentar modificá-lo.

Vamos avançar um pouco mais em nossa analogia. Diferentemente do filme, o que existe em nossa realidade são ideias ou ideologias que servem de justificação dos interesses de determinados grupos ou classes sociais. Mas o que significa isso?

Por exemplo, certamente os que disseminam a ideia de que o mundo sempre foi assim e sempre será se beneficiam da exploração e de sua condição de superioridade na sociedade (banqueiros, donos de terras, empresários etc.). Não interessa a eles mudar o mundo e fazer com que todos estejam bem. Para que essa realidade não seja questionada – e, quem sabe, modificada, suas ideias precisam ser representadas como sendo as ideias de todos.

“Matrix é o mundo que acredita ser real para que não se perceba a verdade.” Será que vivemos em um mundo de faz de conta?

Outro exemplo: pensar que os negros e as mulheres são inferiores, certamente beneficia, respectivamente, indivíduos brancos do sexo masculino a terem vantagens materiais e espirituais sobre os primeiros, mesmo que esses também tenham como características serem homens negros ou mulheres brancas. Essas ideias, se não forem contestadas, como na cidade de Zion, um dos cenários do filme, certamente farão com que negros e mulheres se sintam inferiores, assumindo também atitudes racistas e machistas.

Por outro lado, a ideologia da cidade de Zion pode ser considerada como aquilo que dizia Mannheim, ou seja, o povo que se libertou da Matrix possui formas de pensar e pontos de vista diferentes da própria Matrix. Essas formas de pensar desse povo, retratado no filme, representavam seus interesses de liberdade e igualdade. A cidade de Zion e a ideologia de seus habitantes seriam, na visão de Mannheim, mas também na de Gramsci, uma visão de mundo em que os seres humanos se posicionam e lutam por um determinado ideal.

A Sociologia, portanto, através do conceito de ideologia, pode contribuir para que desnaturalizemos nossas visões de mundo. Isto significa perceber que nem sempre nos damos conta de que aquilo que parece natural pode representar, na verdade, a posição de um determinado grupo ou classe social, com os seus interesses específicos. Faz-se necessário desvendar a câmara oculta, a matrix, identificar e refletir criticamente sobre os pensamentos e ideias que estão presentes no mundo à nossa volta, perceber que tipo de discurso se está fazendo e quem o está expressando, além de tentar perceber quais são seus reais interesses. Ou seja, pensar que nem tudo é óbvio, nem tudo pode ser “normal”, mas que a vida em sociedade requer um exercício sociológico para não sermos manipulados, dominados e submetidos às vontades dos outros, involuntariamente.

Portanto, voltando às frases iniciais do capítulo, que foram expressas por personalidades no Brasil e na Itália, perguntamos agora: nós podemos dizer que são frases ideológicas? Quando uma cantora famosa limita a concepção de educação à obtenção de um emprego, desqualificando a importância de se fazer um curso superior, ela não está, mesmo sem atentar para isso, “orientando” nesse sentido os que a admiram e a seguem? Ela não está “defendendo” uma determinada visão de mundo? Quando o primeiro-ministro italiano “minimiza” os assassinatos cometidos sob a ordem de um chefe político do passado ele não promove uma inversão da realidade – e, ao mesmo tempo, apresenta como “normal” atrocidades reconhecidas historicamente e cometidas por um regime político identificado com o personagem citado? Que tipo de “(re)leitura sobre a história” ele tinha a intenção de fazer? Com que objetivo? Será que sua “reinterpretação” intencionava provocar nos cidadãos do país um posicionamento em relação a alguma situação política mais atual, de acordo com questões que se debatiam naquele momento? Pense nas outras frases que citamos como exemplo na abertura deste capítulo e reflita a respeito.

Cartaz da passeata de professores do Rio de Janeiro (2012).
Interatividade
Revendo o capítulo

1

Defina o conceito de ideologia, comparando as definições apresentadas por Marx, Lênin, Gramsci e Mannheim


2

Como a ideologia se manifesta em sua escola? Dê exemplos.


3

Por que podemos afirmar que existe uma “Matrix nossa de cada dia”?


Dialogando com a turma

1

Podemos afirmar que o preceito constitucional que afirma que “todos são iguais perante a lei” trata-se de uma afirmação ideológica? Por quê?


2

Debata com os seus colegas sobre a importância do estudo da ideologia, procurando perceber de que forma ela afeta a sua vida.


Verificando o seu conhecimento

1

(ENEM, 2009)


Os regimes totalitários da primeira metade do século XX apoiaram-se fortemente na mobilização da juventude em torno da defesa de ideias grandiosas para o futuro da nação. Nesses projetos, os jovens deveriam entender que só havia uma pessoa digna de ser amada e obedecida, que era o líder. Tais movimentos sociais juvenis contribuíram para a implantação e a sustentação do nazismo, na Alemanha, e do fascismo, na Itália, Espanha e Portugal.
A atuação desses movimentos juvenis caracterizava-se:



(A)

pelo sectarismo e pela forma violenta e radical com que enfrentavam os opositores ao regime.


(B)

pelas propostas de conscientização da população acerca dos seus direitos como cidadãos.


(C)

pela promoção de um modo de vida saudável, que mostrava os jovens como exemplos a seguir.


(D)

pelo diálogo, ao organizar debates que opunham jovens idealistas e velhas lideranças conservadoras.


(E)

pelos métodos políticos populistas e pela organização de comícios multitudinários.


2

(ENEM, 2009)


Na democracia estadunidense, os cidadãos são incluídos na sociedade pelo exercício pleno dos direitos políticos e também pela ideia geral de direito de propriedade. Compete ao governo garantir que esse direito não seja violado. Como consequência, mesmo aqueles que possuem uma pequena propriedade sentem-se cidadãos de pleno direito.
Na tradição política dos EUA, uma forma de incluir socialmente os cidadãos é:



(A)

submeter o indivíduo à proteção do governo.


(B)

hierarquizar os indivíduos segundo suas posses.


(C)

estimular a formação de propriedades comunais.


(D)

vincular democracia e possibilidades econômicas individuais.


(E)

defender a obrigação de que todos os indivíduos tenham propriedades.


│Pesquisando e refletindo
Livros:

CHAUÍ, Marilena. O que é ideologia. São Paulo: Brasiliense, 1980. (Coleção Primeiros Passos).

Livro introdutório ao tema, apresentado com uma linguagem simples e envolvente para os jovens.

MOORE, Michael. Stupid White Men: uma nação de idiotas. São Paulo: Francis, 2003.

Michael Moore é um crítico impiedoso da visão de mundo e das políticas norte-americanas. Neste “livro-provocação”, ele revela a ignorância da maioria do povo norte-americano em relação ao mundo, apresentando-o como um povo “ao redor do seu umbigo”.

Filmes:

A NOITE DOS DESESPERADOS (They Shoot Horses, Don’t They?, EUA, 1969). Direção: Sidney Pollack. Com Bruce Dern. Duração: 120 min.

Urna visão crítica da sociedade e seus métodos de iludir o cidadão, através de uma maratona de danças, na época da Depressão Americana.

FAHRENHEIT 451 (Fahrenheit 451, França/Reino Unido, 1967). Direção: François Truffaut. Elenco: Oskar Werner, Julie Christie, Cyril Cusack. Duração: 112 min.

Ficção científica inspirada pelo livro de mesmo nome, escrito pelo norte-americano Ray Bradbury e publicado pela primeira vez em 1953. A história se passa em um Estado totalitário do futuro em que qualquer crítica é proibida e, por este motivo, por representarem uma ameaça, os livros – qualquer impresso – são proibidos e banidos de circulação. Até que um bombeiro começa a questionar essa realidade, quando vê uma mulher preferir ser queimada em meio aos livros que escondia, ao invés de permanecer viva.

Conectados na internet e nas redes sociais:

SUA PESQUISA – IDEOLOGIA
http://www.suapesquisa.com/o_que_e/ideologia.html

Além de apresentar uma definição sobre o tema, o site oferece alguns links que remetem para outras páginas, com apresentações do que pode ser intitulado como “ideologias políticas”: o fascismo, o capitalismo, o comunismo e o anarquismo. Acesso: janeiro/2015.

IDEOLOGIA: TERMO TEM VÁRIOS SIGNIFICADOS EM CIÊNCIAS SOCIAIS
http://bit.ly/11DZJkO

Página do portal UOL educação – pesquisa escolar, que apresenta um texto sobre o significado do conceito de ideologia nas Ciências Sociais. Acessando também o Youtube e digitando “ideologia”, você também encontrará vários vídeos para debater com seus colegas e com o professor sobre o tema estudado no capítulo. Fica a sugestão. Acesso: janeiro/2015.

Músicas:

IDEOLOGIA – Autores: Frejat e Cazuza. Intérpretes: Cazuza e Barão Vermelho

São bem conhecidas a música e a frase “ideologia, eu quero uma para viver!”. Agora que estudamos essa matéria, seria interessante relermos a letra da música, procurando identificar a visão de mundo de Cazuza com as distintas definições de ideologia.

COTIDIANO – Autor e intérprete: Chico Buarque

O exercício sugerido para a música anterior vale também para a letra deste clássico da MPB – Música Popular Brasileira.

Filme destaque:

MATRIX
(The Matrix)

FICHA TÉCNICA:


Direção: The Wachowski Brothers.


Elenco: Keanu Reeves, Laurence Fishburne, Carrie-Anne Moss


Duração: 136 min. (EUA, 1999)


SINOPSE: Com o enguiço da sua nave, extraterrestres se refugiam numa favela de Johanesburgo, na África do Sul, o Distrito 9. Ao serem descobertos, provocam a reação do governo, que contrata uma empresa que tenta controlar os alienígenas e mantê-los em campos de concentração. Ficção científica como pano de fundo para discussão das diferenças e de temas como apartheid, segregação, repressão e xenofobia.