O conhecido sociólogo francês Pierre Bourdieu (1997), em um de seus livros, fez afirmações muito fortes tanto em relação à televisão quanto aos apresentadores de programas:
A televisão tem uma espécie de monopólio de fato sobre a formação das cabeças de uma parcela muito importante da população.
(...) a televisão não é muito propícia à expressão do pensamento.
(...) essas palavras fazem coisas, criam fantasias, medos, fobias ou, simplesmente, representações falsas.
(...) eles podem impor ao conjunto da sociedade seus princípios de visão de mundo, sua problemática, seu ponto de vista.
(BOURDIEU, 1997, pp. 23, 39, 26, 66)
Vivemos na “sociedade da informação”. Nós somos bem informados? Na foto, um engenheiro de vendas fazendo a demonstração de um novo aparelho que, através da linha telefônica, apresenta serviços de TV, internet, videolocadora, gravação de programas, além da telefonia.
Será que num mundo globalizado, onde temos acesso a várias informações, podemos ser tão manipulados assim pelos programas transmitidos pela TV? O que você acha dessas fortes afirmações de Pierre Bourdieu (1997)?
Para compreender melhor essas ideias, apresentaremos, neste capítulo, entre outras coisas, os meios de comunicação de massa (ou as denominadas mídias) e as relações sociais, no novo contexto da globalização.
Você já deve estar acostumado a receber muitas informações todos os dias. Não é verdade? Mesmo quem não tem acesso rápido à internet, aos jornais ou aos celulares, possui algum meio de comunicação de massa, como TV ou rádio. Assim, como o próprio nome permite entender, os meios de comunicação de massa correspondem a todas aquelas mídias – ou seja, os suportes necessários à transmissão de informações – que podem atingir a maior parte da população do planeta.
O acesso a diversos meios como a internet, celulares etc. está crescendo em nível mundial. Até a televisão está acompanhando os avanços das novas tecnologias. Atualmente, podemos acompanhar pela TV uma guerra ao vivo do outro lado do planeta. Podemos conversar com várias pessoas na Europa ou na China ao mesmo tempo. O fato interessante é que tanto nas grandes cidades como nas pequenas algumas pessoas estão utilizando cada vez menos os correios e os telefones convencionais para se comunicar, dando preferência aos celulares, aos e-mails, aos chats, ao WhatsApp, ao Facebook, ao Twitter, ao Instagram etc. Ou seja, recursos em que você se comunica de forma instantânea. O incrível é que com alguns desses recursos você pode tirar uma foto e, imediatamente, enviá-la para alguém distante. Para muitos estudantes, até uma simples pesquisa ficou mais fácil, pois, se antes era necessário deslocar-se fisicamente até uma biblioteca, hoje é possível consultar uma de Portugal através da internet ou fazer uma pesquisa sobre determinado assunto por meio de um programa de “buscas” por imagens, vídeos, textos ou até livros disponíveis gratuitamente na rede, como é o caso, por exemplo, de sites como o Google e o YouTube.
O acesso a diversos meios de comunicação depende deles: os satélites. Na foto, antenas de retransmissão de satélites.
Como podemos observar, o desenvolvimento das novas tecnologias da informação está revolucionando hábitos, costumes e modos de pensar dos povos e indivíduos. E é um desenvolvimento que não para. Podemos constatar hoje em dia que as chamadas redes sociais – exatamente os sites de relacionamento já citados, como Facebook e YouTube – cumpriram um papel importante de mobilização da juventude durante grandes revoltas de caráter popular, como foi o caso, por exemplo, da chamada Primavera Árabe, que teve início na Tunísia, em 2010, e se espalhou por todo o Norte da África e Oriente Médio, derrubando ditaduras que se encontravam no poder há décadas, não só o caso da própria Tunísia, mas também do Egito, da Líbia e do Iêmen! No Egito, ficaram famosos os protestos que ocuparam a Praça Tahrir, em 2011. Da mesma forma, na mesma época, e se espalhando por todo o ano de 2012, a internet foi um instrumento de organização dos protestos dos estudantes chilenos, que exigiam educação pública e gratuita; e do grande número de jovens desempregados e dos trabalhadores em greve na Espanha, na Grécia e em Portugal, entre outrospaíses, que lutavam contra as medidas de “austeridade econômica” que seus governos, mediante as ordens da União Europeia, procuravam impor a toda a população. Para além da Praça Tahrir, ganhou destaque as manifestações de junho e julho de 2013, onde milhões de brasileiros foram as ruas reivindicar a diminuição dos preços das passagens, protestar contra as políticas do governo federal etc. Muitas dessas manifestações ocorridas em todo o Brasil foram mobilizadas, organizadas e divulgadas ao vivo pelas redes sociais como Facebook, Twitter e YouTube. Nesta época uma nova forma de divulgação foi colocada a serviço dessas manifestações: a transmissão ao vivo pela internet, uma delas denominada Mídia Ninja.
Então, por tudo que descrevemos acima, já deu para reparar que esses meios de comunicação de massa como jornais, rádio, TV, internet, celulares ...são muito importantes em nossas vidas, e mesmo quem não tem acesso a todos esses recursos de alguma forma sofre a interferência deles, pois muitas decisões são tomadas por governos ou pessoas que interferem na política, na cultura e nas nossas opiniões sobre os acontecimentos do mundo.
Essa reflexão é importante porque podemos afirmar que as mídias, além de informar e nos colocar em contato com outras pessoas, são importantes agentes de socialização, ou seja, contribuem para que aprendamos muitas coisas e nos fazem interagir com o mundo. Já desenvolvemos esse tema no capítulo sobre a socialização dos indivíduos. Mas também é importante ressaltar que essas mídias podem ser consideradas como instituições sociais. Por exemplo: a Rede Globo, que já existe há mais de 40 anos, é uma empresa capitalista, mas também é uma organização social que influencia a vida de milhões, formando opiniões, socializando e contribuindo para constituir as identidades das pessoas, sejam jovens ou adultos. Quantas vezes nos reunimos em família ou em grupos de colegas e amigos para ver novelas, programas humorísticos ou programas dominicais de variedades? Será que um simples exemplo pode estimular nossa imaginação sociológica? Mas o que dizem os especialistas sobre os meios de comunicação de massa?
Mas como as mídias interferem em nossas vidas? Por que elas são consideradas um elemento importante de socialização das pessoas? Essas perguntas foram motivo para que alguns especialistas teorizassem sobre os meios de comunicação de massa. Vejamos alguns.
O professor canadense Marshall McLuhan (1971) definiu, de forma bastante polêmica, o fenômeno da comunicação. Ele afirmava: “o meio é a mensagem”. Ou seja, mais importante do que a análise do conteúdo de uma mensagem seria a análise do seu veículo. Concluindo, daí, que um mesmo conteúdo exposto num livro, gibi, transmitido numa rádio ou na TV teria efeitos diferentes.
McLuhan analisa os canais de comunicação a partir da sua classificação em três etapas:
• a civilização oral, através da palavra falada e pelos gestos;
• o surgimento da escrita e da sua explosão no século XVI, com a invenção da imprensa, que ele denominou de Galáxia de Gutenberg;
• a etapa da Galáxia de Marconi, com o surgimento dos meios de comunicação como rádio, cinema e a TV.
McLuhan escreveu no final de 1960 e início dos anos 1970. Ele foi um dos primeiros a afirmar que a mídia eletrônica estava transformando a vida em uma aldeia global, ou seja, as pessoas espalhadas pelo mundo acompanhavam os acontecimentos e, de certa forma, participavam juntas deles. Essa observação de McLuhan, com o passar dos anos, ficava mais clara para um número cada vez maior de pessoas. Você sabe, por exemplo, o que as pessoas sentiram ou disseram quando, em 11 de setembro de 2001, o World Trade Center caiu com os ataques dos aviões em Nova York? Pergunte aos seus parentes, vizinhos ou professores.
Outro sociólogo que trouxe uma contribuição importante para essa discussão foi o alemão Jurgen Habermas, que foi integrante de um grupo de pensadores que ficou conhecido como a Escola de Frankfurt. De fato, formavam uma escola, porque estudavam e produziam juntos diversos conhecimentos sociológicos. Este grupo inventou o termo indústria cultural, que se refere ao fato de que a cultura, com suas diversas manifestações, passou a ser produzida de forma padronizada e comercialmente. Habermas (1984) falava que a indústria cultural transformou a discussão dos interesses públicos – que ele chamava de esfera pública –, como, por exemplo, a política e a democracia, em interesses comerciais que beneficiam os interesses privados. Ele diz, entre outras coisas, que as discussões políticas são encenadas nos parlamentos e na mídia e que os reais interesses públicos são manipulados e controlados pela mídia.
O sociólogo Jurgen Habermas produziu estudos e reflexões relevantes sobre a indústria cultural.
Ainda sobre o tema (indústria cultural), outro pensador que apresentou uma reflexão importante foi Walter Benjamin (1989). Ele afirmava que, como os produtos culturais criados pelos homens foram submetidos à ideia de consumo, eles foram transformados em mercadorias e passaram a ser fabricados em série – ou, seguindo a lógica do mercado, valorizados como bens de luxo, de alto custo e de difícil acesso. Isto vale, por exemplo, para as obras de arte: algumas exposições se transformam em grandes eventos turísticos, às vezes viajando o mundo e se deslocando entre diversos museus ou sendo expostos em praças públicas.
Walter Benjamin, dessa forma, diz que a indústria cultural massifica a cultura e as artes para o consumo rápido no mercado da moda e na mídia. Massificar é banalizar as artes e a produção das ideias e, também, de certa forma, vulgarizar os conhecimentos. Uma filósofa brasileira, Marilena Chauí (1995), falando sobre o papel da indústria cultural em nossas vidas, diz que ela é feita para vender cultura e para tal deve agradar e seduzir o consumidor. Essa indústria não pode provocar, chocar, perturbar ou fazer o consumidor pensar nas informações novas. Segundo Chauí, o que a indústria cultural deve fazer, para ser eficiente e eficaz, é oferecer ao consumidor coisas e ideias já conhecidas, vistas e feitas com novas aparências.
O francês Jean Baudrillard (1991) foi outro que teorizou sobre a mídia de massa. Para ele, o impacto das mídias no mundo contemporâneo produz um impacto na vida das pessoas muito mais profundo do que qualquer outra tecnologia. Para ele, a TV, por exemplo, não serve somente para representar o mundo, mas principalmente para definir como é este mundo em que vivemos. Diz ainda que não existe apenas uma realidade, mas uma hiper-realidade, ou seja, um mundo de “simulacros” em que o importante são as imagens sobre um fato, que podem não significar o fato realmente ocorrido. Uma ideia muito parecida com a de Marshall McLuhan (1971), ou seja, o meio é a mensagem. Quantas vezes já vimos, por exemplo, os comerciais de TV que tentam vender produtos sem qualidade, mas com ótima produção de marketing, que seduz o público – ou porque uma personalidade famosa está recomendando? Um exemplo parecido vindo do intelectual brasileiro Muniz Sodré afirma que a TV é uma máquina de identidade coletiva (SODRÉ, 1990). O que faz da informação massiva um simples efeito de gestão das consciências e uma forma dissimulada de governo.
Indústria cultural: vender, seduzir, agradar...
Para o autor, a televisão oferece ao espectador um espaço e um tempo simulados. Ela cria o que ele chama de telerrealidade ou telepresença, ou seja, o simples fato de estar ligado, o aparelho receptor é o elemento capaz de ligar o telespectador, de amenizar a absurda solidão que possa sentir, como indivíduo, na massa gigantesca da grande cidade. Uma das formas desse indivíduo combater a sua solidão é exatamente a tentativa de buscar momentos de felicidade através da aquisição dos produtos vendidos pela propaganda...
Assim, o que é veiculado pela TV conquista a cada dia o monopólio da verdade, da fala sobre o mundo. A verdade dá lugar à credibilidade de quem está dizendo e não interessa o que é dito. Na TV, as coisas se justificam por sua própria circulação, pelo mero passar na TV, e não pelo seu conteúdo.
Podemos citar como exemplo o caso do MST, onde a visão que se passa nos meios de comunicação é de que se trata de um grupo de radicais, invasores de propriedades e bandos armados contra a ordem pública. O que tem maior credibilidade? Uma manchete em um jornal ou em capa de revista semanal como, por exemplo, “MST ensina táticas de guerrilha aos sem-terra” (O Globo, 13/6/99) e, dez anos depois, “MST destrói plantação de laranjas” (Folha de São Paulo, 06/10/2009)? Ou o depoimento dos sem-terra sobre suas condições de vida e suas principais reivindicações? Por que não é veiculada na mídia, neste caso, a informação sobre a concentração de terras por parte de poucos proprietários no Brasil, impedindo que se produzam alimentos baratos?
Será que a TV, como diz Muniz Sodré, conquista, a cada dia, o “monopólio da verdade”?
Confirma-se a ideia de Muniz Sodré (1990) que ao indivíduo isolado se oferece uma interpretação parcial dos fatos. Esta visão parcial, ao final, aparenta ser “a única verdade”, o fato considerado como “incontestável”.
É interessante notar que, pelas oportunidades de informações que existem no Brasil, reveladas numa pesquisa feita pelo IBGE, em 2001, a influência da mídia televisiva pode ter um efeito considerável. Pois vejamos as disponibilidades de meios de informação e formação existentes nos 5.506 municípios brasileiros:
93% não dispõem de cinemas;
85% não têm museus nem teatros;
65% não apresentam livrarias, nem lojas de CDs ou fitas; e em
25% não existem bibliotecas.
Em compensação, 99% do território nacional são cobertos pelas grandes empresas de mídia, dentre as quais a Rede Globo, que concentra a maior parte dos veículos de comunicação, como emissoras de TV e rádio, e jornais impressos. Veja a tabela a seguir:
Outro fator relevante na análise dos efeitos da mídia, como se pode perceber nessa tabela, é a publicidade. Esta é um poderoso instrumento estimulador da produção e do consumo de massa. É o elemento que se impõe como dispositivo técnico de gestão da vida do cidadão--consumidor por meio da sedução, da persuasão e da motivação. Numa comparação mais profunda, implica poder de governo para quem a domina.
Essas considerações nos levam à indagação de como a humanidade teria alterado sua autoconsciência e também a consciência do mundo, através da evolução dos meios de comunicação. Deve-se registrar, de qualquer forma, que antes do advento e da propagação dos meios de comunicação de massa, existiam outros mecanismos ou instituições – como as diversas religiões e Igrejas, por exemplo – que incidiam de forma direta sobre as visões de mundo dos indivíduos – o que estamos chamando aqui de sua “consciência do mundo”. O mundo influenciado pelas mídias apresenta essa autoconsciência em outro patamar, mas – atenção! – sem ignorar os velhos mecanismos de formação das consciências. Só para ilustrar o que estamos afirmando, basta pensar no mesmo exemplo das religiões e igrejas eperceber o alcance e o poder que elas têm hoje através de programas que financiam em inúmeras redes de rádio e TV, e enquanto proprietárias de uma extensa rede de meios de comunicação de massa.
As novas tecnologias da informação, como dissemos no início deste capítulo, estão revolucionando as relações sociais, os hábitos cotidianos e os costumes das pessoas. Aqui vamos ativar nossa imaginação sociológica com alguns exemplos.
Um primeiro exemplo é sobre a utilização de celulares. A massificação, que significa a expansão acelerada dessa nova tecnologia, possibilitou o surgimento de certas formas de interação entre as pessoas, formas essas impossíveis há alguns anos. O interessante é que o uso dos celulares passou a ser quase uma regra nas grandes cidades, relegando àqueles que não os usam a uma categoria de pessoas antissociais. O celular nos dá muita mobilidade nas relações sociais e alterou certos comportamentos. Pais, agora, podem controlar seus filhos adolescentes quando estes estão fora de casa. Atualmente, nos trens, nos ônibus, nas ruas, podemos escutar as conversas de pessoas que, quando falam nos seus celulares, estão expressando fatos pessoais e íntimos. Há alguns anos essas conversas eram restritas ao espaço privado da casa ou do trabalho. Agora, cada vez mais, questões até então privadas invadem os espaços públicos e os diálogos íntimos começam a fazer parte da poluição sonora das cidades.
Os celulares revolucionaram nossa vida cotidiana mesmo nas escolas e, até, nas prisões.
Nas salas de aula, alguns alunos levam seus celulares e têm sua aula interrompida por alguém telefonando para eles. Mães e pais, com essa prática, desviam a atenção dos filhos na hora da aula. Até as quadrilhas de dentro das prisões usam os celulares. O presidiário já não está tão “isolado” assim do mundo fora da prisão – quando a segregação deveria ser um dos efeitos impostos pela pena de reclusão. Ele, agora, com acesso ao celular, pode organizar roubos, sequestros e até fugas e rebeliões. Você se lembra do papel que o celular passou a ter, de uns tempos para cá, nas rebeliões de presidiários? Basta assistirmos aos noticiários diários.
Vamos a outro exemplo.
Certa vez, um professor de Sociologia fez um comentário muito interessante. Ele dizia que quando era jovem viveu numa época em que a pessoa que procurava emprego ia até o local indicado, gastando muito tempo com isso. Ele contou que, em 2003, estava precisando aumentar sua renda e, ao voltar para casa de ônibus, tarde da noite, recebeu uma chamada no celular de uma faculdade oferecendo-lhe emprego. Ele comentou: “muita coisa mudou hoje, eu consegui esse trabalho enviando meu currículo por e-mail e no dia seguinte recebi um telefonema me oferecendo um trabalho quando estava fora de casa”. Relacionado a este fato, o mesmo professor comentou: “as pessoas hoje não são mais procuradas, elas são achadas”.
Já que estamos falando de mudanças nas relações sociais, podemos afirmar que algumas das programações da TV estão também revolucionando certas ideias sobre vigilância e controle das pessoas. Um exemplo bem concreto é o programa exibido pela Rede Globo, Big Brother Brasil – BBB.
Não foi a Rede Globo que inventou este programa. Em 1999, o executivo de uma TV holandesa, John de Mol, teve a ideia de criar um reality show (show da realidade), onde pessoas comuns seriam selecionadas para conviverem juntas dentro de uma mesma casa, vigiadas por diversas câmeras, vinte e quatro horas por dia. O nome do programa – Big Brother – teve como inspiração uma antiga obra de ficção científica.
Big Brother é um reality show onde, durante cerca de três meses, um grupo de pessoas tenta se manter o máximo de tempo possível em uma casa fechada, sem acesso a TV, jornais, rádio, amigos e familiares e, assim, conseguir um grande prêmio em dinheiro. A decisão sobre quem sai e quem fica é tomada pela audiência que acompanha o programa e que, por algum motivo, toma partido de um ou mais membros da casa, votando através do telefone fixo, do celular ou pela internet.
O termo “Grande Irmão” (Big Brother) representa um personagem fictício no romance 1984, escrito por George Orwell e publicado em 1949. Esse romance retrata o cotidiano dos indivíduos numa sociedade totalitária. Nessa sociedade, todas as pessoas estão sob constante vigilância das autoridades, e sendo sempre alertadas pelo Estado com as seguintes frases: “o Grande Irmão zela por ti” ou “o Grande Irmão está te observando”. O livro denuncia o totalitarismo do Estado que, na figura de um homem, através das chamadas, governa de forma arbitrária e manipula a forma de pensar das pessoas.
Pois bem, o programa é inspirado nesse romance, mas no BBB informa--se que não há intenção de governar, vigiar e controlar as mentes, mas sim mostrar “as pessoas como elas verdadeiramente são”, com suas virtudes e, principalmente, com os seus defeitos. O programa apresenta--se como um entretenimento, uma diversão, um passatempo marcado pelas “espiadas” no comportamento dos seus participantes. Será que essa exposição no programa não faria parte de uma teatralização da TV?
Ao contrário do romance, que passava a ideia de que numa sociedade futura seríamos todos vigiados, controlados e manipulados, hoje o BBB estaria representando uma nova realidade social, ou seja, nós somos vigiados sim, mas não no sentido de que perdemos nossa liberdade, e sim de que no mundo de hoje o fato de ser visto sempre passa a ser entendido como uma qualidade, a visibilidade ao extremo como algo muito valorizado. Dessa forma, quanto mais você é visto e olhado, mais você participa do mundo.
Nas grandes cidades as câmeras de vídeo estão por quase todos os lados. Na foto, policiais do Centro de Operações da Polícia Militar monitoram imagens de câmeras de vigilância na cidade de São Paulo.
Há, também, a mistura entre o que é público e o que é privado. Então, um fato que poderia ser considerado tempos atrás como uma invasão de privacidade, hoje está se transformando cada vez mais em um espetáculo para a diversão do público.
Hoje, não é somente no BBB que existem câmeras de vídeo por quase todos os lados. Nas ruas das grandes cidades, nos shoppings, nos elevadores, nas lojas, nos supermercados, nos ônibus, até nas escolas, enfim. Muitos atos e comportamentos de nossa vida privada se transformam em coisa pública. Às vezes, certas cenas de nosso cotidiano vão parar no site You Tube ou em ferramentas semelhantes.
Há alguns anos, diversos sociólogos, ao discutir os meios de comunicação, apontavam para a existência de uma esfera pública e de uma esfera privada dos indivíduos, ou melhor, que todos nós vivíamos e nos relacionávamos com outras pessoas de forma diferente em espaços diferentes. E hoje? O que nossa imaginação sociológica poderia afirmar? Seria a mesma coisa? Se não, quais seriam as diferenças? Discuta com seus colegas e professores.
Nas sociedades atuais, o conhecimento é fortemente valorizado, mas muitas são as formas de ascender a ele, não se podendo atribuir à escola e à família a exclusividade desta função. O impacto dos meios de comunicação de massa – e, particularmente, da informática – está revolucionando as formas de adquirir conhecimento. E essas formas vão se multiplicar nos próximos anos.
Hoje, por exemplo, temos os filmes infantis que inculcam valores; temos a internet que nos apresenta um mundo de informações, jogos, imagens etc. É importante notar que as crianças e os jovens interagem com essas novas ferramentas de uma forma muito diferente, na qual os adultos não foram socializados.
Não faz muito tempo, certas informações demoravam dias para chegar ao nosso conhecimento. Por outro lado, alguns programas de TV não eram ao vivo. Por exemplo, em alguns locais do interior do Brasil, em 1970, só alguns dias depois da final da Copa do Mundo de futebol é que se soube que o Brasil havia sido tricampeão. Muitos outros programas de televisão eram gravados numa semana e exibidos ao público em outra, ou até mesmo um mês depois. Assim, certas informações chegavam muito tempo depois de terem acontecido.
E hoje? Chegamos a um ponto em que podemos ver os fatos no momento em que estão acontecendo, ao vivo, como no caso da ocorrência de terremotos, furacões, grandes enchentes e outras catástrofes da natureza que atingem o planeta praticamente todos os anos, pois os satélites têm a capacidade de nos transmitir as informações rapidamente. No mesmo instante em que as imagens são produzidas, são recebidas e transmitidas.
Estamos falando de televisão e transmissões via satélite que estão aproximando pessoas, produtos e informações. Mas, também podemos falar da internet. Este é um sistema de comunicação entre computadores que liga o mundo inteiro com conhecimentos, leituras, mensagens visuais e textuais e também audiovisuais. É o chamado mundo virtual, ou seja, ele não se concretiza em objetos, mas existe apenas visualmente, no momento em que acessamos a rede de comunicação interligada pela tecnologia da informática.
Assim, podemos ler um livro ou texto recém-lançado, sem que esteja escrito em papel algum. Temos as chamadas revistas eletrônicas, ou seja, revistas de informações, que podem ter o mesmo formato de revistas em papel, mas que estão apenas expostas na tela do computador. Algumas revistas impressas, jornais e livros agora são comercializados somente em formato digital, podendo ser lidos no celular ou em tablets, que são quase que “livros digitais”. Sem falar na propagação cada vez mais acentuada de cursos à distância, ou seja, que não são presenciais, mas virtuais. Virtual não no sentido de que ele não exista, mas no sentido de que é cursado pelo aluno através do sistema informacional, por computadores ligados à internet.
No mundo atual, muitos livros, revistas e jornais são lidos num suporte computacional.
Enfim, estamos destacando essas novas tecnologias por entendermos que elas representam, atualmente, um dos instrumentos que mais influenciam os processos de socialização e educação, além da escola e da família.
Vamos dar um exemplo bem real de um menino de seis anos, cursando a classe de alfabetização, que começava a aprender a ler e escrever. Para surpresa de sua professora, em menos de dois meses ele começou a ler quase tudo. A professora marcou uma reunião com os pais do menino, pois, segundo sua experiência, o menino estaria tendo apoio em casa ou aulas particulares. No entanto, os pais relataram que sempre ficavam pouco tempo em casa e que só podiam dar atenção ao filho nos finais de semana. Então, qual foi o motivo para que aquela criança aprendesse tão rapidamente a ler?
O pai relatou que seu filho estava muito curioso para aprender a mexer na internet e no computador. Assim, num final de semana, ensinou-o como funcionava o computador e como “navegar” na internet. Ajudou, ainda, o fato da irmã de nove anos sempre trabalhar com o computador, ver figuras animadas, vídeos, brincadeiras e jogos. Aprendeu rápido e começou a descobrir a leitura, incentivado pela internet, através de jogos e brincadeiras, dos quais precisava ler as várias regras. A consequência disso foi que ele se transformou no “primeiro aluno” de sua turma, alfabetizando-se muito mais rapidamente que todos os demais.
A internet e o computador ajudaram uma criança a acelerar seu processo de alfabetização. Mas, isso não é uma regra ou uma coisa que aconteça sempre. Existem casos em que o computador afasta crianças e adolescentes da escola. Depende muito de cada caso, de cada família. Sem contar o fato de que nem todos no Brasil têm acesso a um computador, mas somente à televisão ou ao rádio.
Todos esses novos instrumentos – programação de TV ao vivo, internet etc. – podem ser considerados novos agentes de socialização na educação das novas gerações, ao lado da família e da escola. É preciso estudar, compreender e reconhecer o papel educativo dessas mídias para estudantes e também para professores.
As novas mídias utilizadas como instrumentos educativos. Na foto, de 13/10/2005, creche “Lar de Rebeca”, no Rio de Janeiro, com computadores conectados à internet.
Os agentes de socialização têm características bem delimitadas, ou seja, passam informações, socializam experiências e formam novas mentes pensantes, inculcando valores e dando exemplos de atitudes a serem adotadas. A família e a escola têm estas características mas, se pensarmos bem, os novos meios de comunicação e informação também cumprem estes papéis. Eles não servem somente para diversão ou lazer.
Quem já não presenciou numa escola, por exemplo, uma polêmica sobre direitos da mulher, em algumas ideias que foram dramatizadas numa novela de TV e que se tornou assunto de debate durante a semana, dentro da sala de aula e no recreio? Certamente, estudantes e professores deram suas opiniões sobre a polêmica e conversaram sobre suas impressões. Essas conversas e mobilizações, em torno desse debate, também educam e formam eticamente os indivíduos.
Estamos destacando estes novos meios de comunicação como agentes de socialização porque, em alguns momentos, eles competem com as famílias e a escola ou as ajudam na formação de crianças e jovens. São os meios mais presentes, atualmente, ao lado da escola e da família, que promovem socialização, difundem opiniões e propõem concepções e modos de lidar com as pessoas e a realidade humana.
Existem outros agentes de socialização como as igrejas, as associações de moradores, os sindicatos, os grupos de amigos, os clubes etc. Eles também passam informações, socializam experiências e formam novas mentes pensantes. Entretanto, nem todos têm a capacidade de mobilização que têm os novos meios de comunicação e informação, pois estes últimos conseguem penetrar no mais íntimo cotidiano das pessoas, seja nas famílias ou nas escolas.
Por outro lado, as novas tecnologias chegam a interferir em rotinas já consagradas por um ritual familiar ou escolar. Vejamos o exemplo de certos professores das grandes cidades brasileiras, nos últimos anos, que reclamam da dificuldade que têm em prender a atenção das turmas por mais de vinte minutos numa aula expositiva, ou seja, os alunos ficam dispersos e não prestam atenção no que eles dizem.
Será que a mídia, principalmente a televisão, não tem nenhum tipo de responsabilidade no que se refere a esta dificuldade de concentração e abstração dos estudantes?
Marilena Chauí (2000) comenta a relação existente entre a dispersão da atenção das pessoas em geral, nos dias atuais, com o hábito gerado pela programação da TV, desde 1960, de concentrar as informações em blocos que podem durar, por exemplo, quinze minutos, com pausas para a publicidade.
Ora, será que essa reflexão não está relacionada à dispersão que os professores em geral percebem nas salas de aula? Não podemos dizer que as crianças, adolescentes e jovens de hoje estão sendo habituados desde bem pequenos a se concentrarem em programas de televisão durante quinze ou vinte minutos, relaxando depois durante os intervalos comerciais? Assim, na sala de aula, depois de quinze ou vinte minutos, eles se cansam, não conseguem prestar mais atenção no professor e se dispersam em conversas ou em outras atividades fora do contexto da aula.
Para agravar este quadro, a grande maioria dos professores brasileiros não conta com recursos de utilização de imagens para ilustrar os conteúdos que deseja apresentar nas suas aulas... Afinal, um programa de TV – com cores, músicas, movimentos e efeitos especiais – pode ser muito mais atrativo visualmente para uma criança ou adolescente do que uma aula com um adulto falando e anotando no quadro de giz.
Este é um exemplo de como outras formas de socialização podem interferir em práticas cotidianas de uma escola. O que fazer, então?
Vimos, por um lado, que essas novas formas de socialização podem contribuir com a escola e a família, mas, por outro lado, interferem de forma negativa em situações de aprendizagem já consagradas pelos educadores.
As novas tecnologias dos meios de comunicação de massa estão revolucionando nossas vidas. No entanto, devemos também analisar sociologicamente que um dos grandes fatores que faz movimentar essas transformações é o interesse econômico das grandes empresas transnacionais e globalizadas. Esses interesses, que mexem com nossas vidas cotidianas, também têm uma interferência de governos e de Estados.
Podemos dizer, então, que o controle da informação é, ao mesmo tempo, um instrumento de poder, por parte dos grupos políticos e econômicos dominantes, além de se constituir como um grande negócio capitalista. Isto é constatado pelo sociólogo e ex-diretor dojornal francês Le Monde Diplomatique, Ignacio Ramonet, quando afirma que “a comunicação tornou-se uma indústria pesada, comparável à indústria siderúrgica da segunda metade do século XIX, ou à do automóvel na década de 20: hoje, é nesse setor que são feitos os investimentos mais importantes” (RAMONET, 2002).
Os interesses econômicos movimentam o crescimento dos meios de comunicação de massa e influenciam nossa vida cotidiana e as decisões políticas. Na foto, a Times Square, região central de Manhattan, Nova York – EUA, onde se concentram algumas das empresas de comunicação mais influentes do mundo.
Ainda segundo Ramonet, os grandes conglomerados formados pelas empresas de comunicação se transformaram nos “novos donos do mundo”, controlando jornais, revistas, livros, cinema, televisão e etc., reunindo diversas empresas de informática e de telecomunicações. Entre esses conglomerados estão a América OnLine (que comprou a Nestcape, a Intel e o grupo Time-Warner-CNN), a Vivendi – Universal (resultado da fusão da Havas, Canal Plus, USA Networks e o grupo Seagram), a Viacom e a News Corporation.
É claro que no Brasil a situação não poderia ser diferente. Basta pensarmos no mais poderoso desses grandes conglomerados de comunicação, as Organizações Globo, para termos uma ideia do que significa esse cenário de monopolização e controle da informação. Da mesma forma como apontamos, essa concentração econômica é acompanhada passo a passo pelos grupos e famílias que controlam as políticas regionais, com influência direta no centro do poder, em Brasília. Para ilustrar, uma pesquisa realizada por Israel Bayma, a partir de dados da ANATEL – Agência Nacional de Telecomunicações, do Ministério das Comunicações e do Tribunal Superior Eleitoral, mostrava, em 2002, que 73,75% das emissoras de radiodifusão brasileiras estavam em poder dessas famílias políticas tradicionais. Só o sobrenome Sarney, por exemplo, segundo Bayma, aparecia como sócio em 56 emissoras de rádio e TV (cf. BAYMA, 2002).
Bayma se refere a esse tipo de exercício do poder político como “coronelismo eletrônico”:
A literatura política brasileira tem utilizado o termo coronelismo como uma forma peculiar de manifestação do poder privado, com base no compromisso e na troca de proveitos com o poder público. A ciência política trata como coronelismo a relação entre os coronéis locais, líderes das oligarquias regionais, que buscavam tirar proveito do poder público, no século XIX e início do século XX. Hoje, não há como deixar de se associar esse termo aos atuais impérios de comunicação mantidos por chefes políticos oligárquicos, que têm, inclusive, forte influência nacional (BAYMA, 2002).
Assim, percebe-se que o controle dos meios de comunicação caminha ao lado das estruturas de poder presentes nas sociedades, significando um instrumento de privilegiamento de alguns grupos e de troca de favores entre o empresariado e o poder público. As concessões de emissoras de TV ou de estações de rádio cumprem esse papel, na medida em que é necessário ter autorização do governo, mas essa autorização só sai para alguns – amigos ou prestadores de favores dos governantes. Por este motivo é que podemos utilizar o termo “clientelismo” como referência ao tipo de relação política que se estabelece entre o que deveria ser público (uma concessão do Estado), mas que assume um caráter privado (já que defende os interesses de determinados grupos econômicos).
Por outro lado, quando se fala em “coronelismo eletrônico”, está se afirmando que alguns políticos dominam e divulgam informações para promoverem a si mesmos e seus aliados, além de hostilizar e censurar as iniciativas dos adversários, mantendo uma dominação política através do monopólio das concessões das rádios e televisões pelo governo. É uma troca de favores: o governo concede a alguns políticos a abertura de rádios e canais de TV e esses mantêm o controle eleitoral da população a favor dos governos.
Voltando às afirmações de Pierre Bourdieu (1997), apresentadas no início deste capítulo, podemos constatar no texto anterior que há uma relação íntima entre poder e mídia e que, ao longo da História brasileira, a televisão, as emissoras de rádio e os jornais impressos e, nos dias de hoje, os boletins eletrônicos divulgados via internet, têm interesses comerciais e políticos. Eles exercem influências significativas sobre comportamentos, visões de mundo, política, moral etc. Parece que aquilo que chamamos de liberdade de expressão está bastante limitado por esses interesses. O que você acha disso? Estamos exagerando? Ou estamos tentando, como dizia Bourdieu no texto citado, fazer da Sociologia um instrumento científico que tem como uma das suas tarefas desvelar coisas ocultas?
Para Pierre Bourdieu (1930-2002), o estudo dos meios de comunicação de massa pode nos ajudar a desvelar uma série de questões ocultas – como, por exemplo, as relações entre a mídia e o poder econômico.