│Unidade 3
CAPÍTULO 20 - “A gente não quer só comida...” Religiosidade e juventude no século XXI
Qual a diferença entre crer e saber? O filme Anjos e demônios apresenta uma interessante reflexão sobre a relação entre a ciência e a religião.

Reportagem publicada em um jornal local da cidade de Paranaguá, A Folha do Litoral, no estado do Paraná, em 13 de setembro de 2009, apresentava o seguinte título: “Jovens procuram religião na internet”. A matéria descrevia a experiência de vários jovens entre 18 e 29 anos que consultavam a Bíblia pela internet. Além disso, dizia que uma jovem levava seu celular para um culto e, quando precisava, acessava um versículo da Bíblia através da rede. Por outro lado, a reportagem descrevia a nova moda nos Estados Unidos, ou seja, igrejas e entidades que, em seus sites, oferecem aos seus fiéis a oportunidade de se confessar através do computador, com a utilização de diversos chats e emails anônimos. Outra informação importante que A Folha do Litoral trazia era sobre uma pesquisa realizada em vinte e um países pelo Instituto Bertelsmann Stiftung, na Alemanha, que revelava que a religião está mais presente no Brasil do que na maioria das outras nações. Esse estudo confirma que o jovem brasileiro é o terceiro mais religioso do mundo, atrás apenas dos nigerianos e dos guatemaltecos. Segundo a pesquisa, 95% dos brasileiros entre 18 e 29 anos se dizem religiosos e 65% afirmam que são religiosos fervorosos, sendo que 90% afirmam acreditar em Deus. E a reportagem ainda dizia que esse estudo ajuda a comprovar que os jovens brasileiros são uns dos que mais recorrem à internet para buscar resolver seus problemas espirituais, pois a rede abrange a diversidade de crenças que se propaga rapidamente.

Entre o crer e o saber

“O século XXI será religioso ou pura e simplesmente não será”. Esta frase tem origem nos anos 1960 e tem sido atribuída, por muitos, ao escritor francês André Malsaux (1901-1976). Autor ou não da frase, ele não viveu o suficiente para se certificar de que a afirmação estaria ou não correta. Nós, entretanto, nos perguntamos a respeito e indagamos a você, como reflexão: será que isso é verdade? Caso sim, como isso se tornou possível? Afinal, não vivemos numa sociedade altamente tecnologizada, onde é a ciência que explica tudo? Também não é verdade que os jovens, por exemplo, não acreditam mais nas religiões, preferindo os divertimentos que as novas tecnologias oferecem?

Mas como explicar, por exemplo, as guerras e conflitos religiosos que continuam presentes no mundo? E no Brasil, por que os evangélicos estão crescendo em número de adeptos? E os adeptos do candomblé e da umbanda, por que ainda existem, já que suas religiões acreditam na “magia” e, como se sabe, no mundo industrializado e urbano, a magia não funciona?

Essas dúvidas vêm, geralmente, acompanhadas de ideias do senso comum que, muitas vezes, não conseguem explicar as causas reais do fenômeno religioso, como “os evangélicos crescem porque iludem as pessoas ignorantes”, “o candomblé e a umbanda vão desaparecer porque vivemos num mundo de alta tecnologia”, “os jovens já não acreditam mais nos princípios religiosos”. Ou, quando estamos numa roda de amigos, costuma-se dizer que “a religião não pode se misturar com a política”, ou que “os católicos são todos iguais”.

A reportagem citada revela ainda que muitas afirmações do senso comum não condizem com a realidade que vivemos, assim como algumas teorias modernas que entendem que a sociedade atual passa por um processo cada vez maior de secularização. Mas, vamos explicar melhor o que acabamos de escrever.

No início do século XX, o sociólogo Max Weber (1974) afirmava que a ciência e as formas de pensamento racional substituiriam a autoridade religiosa. Essa é a tese da secularização que, até há pouco mais de vinte anos, era aceita pela maioria dos sociólogos. Segundo esta tese, as consciências e ações dos indivíduos, em relação à religião e suas instituições, não desapareceriam, porém, estariam em declínio no que diz respeito à sua autoridade em conduzir e influenciar decisivamente as pessoas.

A maioria dos sociólogos começou a rever essa tese, primeiro porque a presença das religiões na vida das pessoas não diminuiu. Por exemplo: em 2002, foi feita uma pesquisa nos EUA e constatou-se que 59% dos americanos consideravam a religião importante. Já no Brasil – um dos países mais religiosos do mundo –, numa análise dos dados do IBGE, entre o período de 1940 e 2000, não houve um declínio de adesão às religiões, mas somente uma diminuição de adeptos ao catolicismo e um aumento dos evangélicos. Outro motivo para que os sociólogos começassem a rever a tese da secularização foi o crescimento do fenômeno chamado fundamentalismo.

O fundamentalismo se caracteriza pelo fato dos adeptos de determinada religião interpretarem seus princípios literalmente como está escrito. São intolerantes em relação aos não fundamentalistas e, frequentemente, apoiam concepções políticas e sociais conservadoras, pois possíveis mudanças sociais podem não estar de acordo com os preceitos religiosos.

Notícias sobre os fundamentalistas que tomaram o poder num determinado país são constantemente divulgadas na mídia. Muitas vezes o islamismo é acusado de ser fundamentalista. Mas, tomemos cuidado, nem todo adepto do islamismo tem uma prática fundamentalista.

Vamos, a partir de agora, tomar este cuidado e estudar o fenômeno da religiosidade para entender um pouco mais o fenômeno religioso que continua interferindo fortemente na vida da maioria dos indivíduos.

Nosso objetivo não é discutir os princípios ou conteúdos das diversas religiões e chegar à conclusão de qual é a melhor para orientar nossas vidas. O que estudaremos aqui, com base numa especialidade dos estudos sociológicos chamada de Sociologia das religiões, é o papel que a religiosidade tem na formação das ideias dos indivíduos sobre o mundo, a sociedade, a política e a cultura. Como a religiosidade interfere na política, na democracia e na cidadania, por exemplo, no Brasil? A sociedade brasileira sofreu mudanças em consequência disso, nos últimos anos?

O objetivo da Sociologia da religião é compreender os efeitos sociais do pertencimento religioso, ou seja, como os indivíduos se comportam e tomam decisões, baseados na sua crença específica, diante da realidade brasileira. Outro objetivo seria estudar a religiosidade de grupos sociais para entender melhor, por exemplo, as maneiras que os brasileiros encontram para enfrentar seus problemas e dificuldades. E, por fim, analisaremos como a juventude, neste início de milênio, se encontra diante do fenômeno religioso.

O que tem a ver a Sociologia com a religião?

Émile Durkheim (1973a), um dos fundadores da Sociologia, escreveu, no século XIX: “Diz-se que em princípio a ciência nega a religião. Mas a religião existe, é um sistema de fatos dados; numa palavra, ela é uma realidade. Como poderia a ciência negar uma realidade?” (p. 534).

Para Durkheim, toda religião tem como característica separar o mundo em coisas profanas e coisas sagradas. Nas coisas profanas, os indivíduos têm atitudes utilitárias, ou seja, objetos, ideias e coisas quando não servem mais podem ser descartados, pois só têm valor na medida em que são úteis. Nas coisas sagradas, ocorre o contrário: objetos, ideias e coisas assumem um valor superior ao dos indivíduos. O sagrado é objeto de adoração, é superior ao homem, é reverenciado.

Essas características, para Durkheim, revelam que a religião é uma das fontes onde se criam regras de comportamento, normas e garantias de harmonia entre os homens. É também através dela que as sociedades se organizam, se estruturam e formam uma imagem de si mesmas. Quantas vezes, por exemplo, ouvimos dizer que quem é religioso é também sério, honesto, cumpridor de seus deveres e obrigações? Ou seja, seguidor de regras de comportamentos que a própria sociedade cultiva.

Outro autor clássico da Sociologia, Karl Marx, também analisa a importância da religião para as sociedades, mas de uma outra forma: “A religião é o suspiro da criatura oprimida, o coração de um mundo sem coração, assim como é o espírito de uma situação sem espiritualidade, ela é o ópio do povo” (MARX; ENGELS, 1960, p. 42).

Para Marx, a religião não faz o homem, mas é o homem que faz a religião. Durkheim pensa da mesma forma. A diferença, no caso, é de abordagem e de sentido, pois, em Durkheim, Deus e a religião são criações humanas e sociais, embora os fiéis de uma religião costumem compreendê-las de modo inverso: o homem e a religião como sendo criações divinas.

Marx entendia a religião como a expressão de um sofrimento real dos homens, ou seja, eles têm necessidade de acreditar em algo para aliviar seus sofrimentos – como o ópio. Por outro lado, segundo Marx, as classes dominantes utilizam-se da religião como ideologia para dominar os oprimidos e explorados. Portanto, ela é vista como ilusão, ideologia que contribui para justificar uma dominação de classe. Marx e seus seguidores fornecem exemplos disso: quando as igrejas afirmam que os pobres devem se conformar com sua condição de pobreza, pois o mundo foi criado por Deus assim e assim sempre será.

João Calvino (1509-1564), teólogo cristão francês e um dos mais influentes líderes da Reforma Protestante.

Max Weber (1974) foi outro sociólogo que também estudou as religiões. Para ele, é na compreensão dos comportamentos religiosos que podemos entender melhor as atividades humanas, pois a religiosidade influencia também outras como a ética, a economia, a política ou as artes. Em seus estudos, por exemplo, ele tentou provar que houve uma mudança na concepção de trabalho a partir da ética protestante. Se, na Antiguidade, o trabalho era visto pelos homens como uma coisa penosa e vil, na Idade Média como fruto do pecado original e como tortura, com o aparecimento do capitalismo, combinado com a nova ética protestante, o trabalho passa a ser visto como êxito da vida mundana, expressão das bênçãos divinas, pois, assim, se cumprirá uma vocação e a garantia da graça divina. Segundo Weber, essa concepção de trabalho, protestante e puritana, servirá perfeitamente para o aparecimento do capitalismo. A referência à concepção puritana, em Weber, se relaciona à prática dos adeptos do calvinismo, cujo comportamento austero, rígido e moralista tornava-os mais dedicados ao trabalho e, portanto, à acumulação de riquezas.

Vejamos o que pensa outro autor importante, mas tradicionalmente pouco estudado no campo da Sociologia das religiões, o italiano Antônio Gramsci:

A religião (...) afirma na verdade, que o homem em geral, enquanto criado por Deus, filho de Deus, sendo por isso irmão dos outros homens, igual aos outros homens, livre entre outros e da mesma maneira que os outros, e ele pode se conceber desta forma, espelhando-se em Deus, autoconsciência da humanidade; (...) Desta maneira, as ideias de igualdade, liberdade e fraternidade fermentam entre os homens, entre os homens que não se veem nem iguais, nem irmãos de outros homens, nem livres em face deles. Ocorreu assim que, em toda sublevação radical das multidões, de um modo ou de outro, sob formas ideológicas determinadas, foram colocadas estas reivindicações.

O que Gramsci quer dizer com isto é que as religiões são poderosas forças também para mobilizar os homens por um mundo melhor. Insatisfeitos com a realidade em que vivem, os indivíduos podem tentar transformar o mundo inspirados pela religiosidade. Essa concepção de Gramsci – de perceber a religião como força transformadora, e não de alienação –, inspirada pelas suas observações a respeito da religiosidade da população italiana, foi inovadora em relação aos demais sociólogos clássicos, tornando-se bastante relevante para se pensar, na atualidade, nas diversas possibilidades de reflexão sociológica sobre as relações entre a religião, a política e os movimentos sociais, estabelecidas em várias regiões do planeta por movimentos religiosos de origens bem distintas.

Esses autores nos demonstram a importância do estudo das religiões no sentido de compreender melhor nossa sociedade, pois, muitas vezes, as ações dos indivíduos não são inspiradas por interesses somente econômicos ou políticos, mas também por questões religiosas. Para entendermos melhor a Sociologia da religião, vamos estudar o fenômeno da religiosidade no Brasil.

As religiões no Brasil

O Brasil é considerado um dos países mais religiosos do mundo. Entretanto, é necessário perceber que nossa formação nacional se caracteriza pela influência de vários matizes religiosos, como o catolicismo oficial e o popular, as religiões de matrizes africanas – como o candomblé e a umbanda –, o protestantismo, os pentecostais, os espíritas kardecistas, a teologia da libertação e os católicos carismáticos. Segundo os dados do censo do IBGE em 2000, os católicos representavam 73,8%, os evangélicos 15,4%, outras religiões 3,5% e os sem religião 7,3%. Já o último censo, realizado em 2010, revelou uma mudança bastante significativa: os católicos passaram a representar 64,6% e os evangélicos cresceram para um percentual de 22,2%. Além desse universo cristão que abrange 86,8% da população, aqueles que declararam pertencer a outras religiões correspondem a um total de 5,2%, enquanto os sem religião passaram para 8%.

Segundo o Censo de 2010, do IBGE, houve queda no percentual de católicos, no Brasil, em comparação com o censo anterior. Por que será que isto vem acontecendo nos últimos anos? A eleição de um latino-americano, o papa Francisco, em 2013, reverterá essa tendência de queda percentual no número de fiéis católicos, que atinge todo o continente?
“Amai-vos uns aos outros” – catolicismo oficial e popular

O chamado catolicismo oficial é facilmente identificado pela instituição da Igreja, vinculado ao Vaticano e com sua hierarquia interna. Até a Proclamação da República, o catolicismo era a religião oficial do Estado Imperial brasileiro. A partir da República, apesar de não constar nas constituições como religião oficial, era e é, até os dias atuais, a religião que mais tem adeptos no Brasil. Segundo dados do último censo IBGE, o Brasil é, ainda hoje, a maior nação católica do mundo com cerca de 126 milhões de adeptos. O catolicismo oficial tem como característica se organizar enquanto instituição denominada Igreja Católica Apostólica Romana.

Na linguagem sociológica, Igreja é uma organização burocrática religiosa que se adapta à sociedade profana ou secular. Ela não desafia a autoridade do Estado, tem uma organização de treinamento de seus líderes, tem hierarquia forte e regulamentos bem definidos. Essas características fazem esse tipo de instituição ter uma longa durabilidade. Por conta disso, também, o catolicismo oficial sempre esteve ao lado dos poderes constituídos, legitimando e justificando, muitas vezes, a situação política e social do país.

O chamado catolicismo popular, no Brasil, tem características devocionais de culto aos santos, diferentemente da prática oficial da Igreja, quando só quem está autorizado a dirigir um culto são os padres, bispos ou o papa. Nos centros urbanos, foi constituído pelas irmandades. No campo, através do culto aos beatos, aos monges e da crença nas “rezadeiras”. Estas últimas também eram encontradas há décadas atrás no meio urbano, em razão da grande migração campo-cidade que ocorreu a partir da metade do século XX. Elas se caracterizavam como católicas, mas suas rezas, envolvidas com práticas de cura de doenças com a utilização de ervas, envolviam elementos sincréticos das tradições religiosas de origem indígena e das religiões afro-brasileiras.

Irmandades são grupos de devotos leigos, reunidos em associações privadas que têm como objetivo a manutenção do culto ou devoção. Têm autonomia jurídica e econômica. Os beatos e os monges são os penitentes, ermitões encontrados nos sertões e que, em alguns casos, se tornaram santos populares e passaram a atrair romeiros e penitentes.

Imagem peregrina de Nossa Senhora de Nazaré, durante a festa do Círio de Nazaré, Belém (PA). Apesar de pertencer ao calendário oficial da Igreja católica, essa procissão pode ser um exemplo de manifestação do catolicismo popular no Brasil.

Quais são as características desse tipo de catolicismo? Ele tem uma origem laica, um caráter penitencial, com devoção às imagens, em que o invisível se torna palpável possibilitando uma comunicação entre vivos e mortos, que dispensa uma mediação de autoridades religiosas. Por fim, há a relação pessoal entre santos e fiéis.

“Laroiê Exu!” – candomblé e umbanda

Durante o cativeiro, uma das únicas coisas que não se pôde roubar ao africano escravizado foi a fé religiosa. E essa fé foi sempre um fator de reconstrução de suas culturas. Assim, a religião impregnou todas as atividades negras brasileiras influenciando até a sua vida profana. Recriando, então, aqui, nas comunidades-terreiro, o candomblé – o espaço da África e sua herança cultural –, foi justamente através da religião que o africano escravizado conservou um profundo sentido de comunidade e transmitiu de geração a geração as raízes de sua cultura.

Ritual das religiões de matriz africana, como o Candomblé e a Umbanda, no Rio de Janeiro. Fiéis fazem caminhada, no Centro da cidade, em 02 de fevereiro de 2012, para a entrega do presente de Yemanjá.

Além dos orixás, entidades divinas, poderes e patronos de forças da natureza, Exu, Yemanjá, Oxum, Oxossi, Xangô, Iansã, Oxumaré e outros, os africanos e seus descendentes sempre cultuaram também os antepassados, os eguns – aqueles espíritos de indivíduos que depois se converteram em ancestrais, em “pais” (Baba Egun). O culto aos antepassados, entretanto, não pode, em hipótese alguma, se confundir com o culto aos orixás, já que cada um deles tem doutrina e liturgias próprias.

O culto aos eguns se realiza em terreiros específicos. O espaço onde se reverencia a memória dos antepassados é o Ilê Igbalé – representação de uma antiga clareira existente no âmago da floresta africana e consagrada aos eguns. Nestes terreiros, a invocação dos ancestrais é a própria essência e a razão maior do culto.

Enquanto o candomblé cultua as forças da natureza, chamadas de orixás, a umbanda pratica o culto de diversos espíritos ancestrais, chamadas de entidades, como pretos-velhos, caboclos, exus e crianças. Esses espíritos incorporam em seus fiéis – adeptos iniciados ritualmente na umbanda – para dar consultas de ajuda e prestar caridade à comunidade. A umbanda é uma criação essencialmente brasileira, surgida na primeira década do século XX, no Rio de Janeiro. É um culto chamado de sincrético, pois há uma certa mistura de cultos africanos aos ancestrais, cultos aos ancestrais indígenas e há também alguns símbolos católicos. A pessoa que recorre à umbanda espera obter proteção dos espíritos ancestrais.

“Ele vai voltar” – protestantes e pentecostais

No século XVI, na Europa, apareceram várias igrejas cristãs, que não obedeciam às ordens do papa e discordavam dos católicos em várias questões e por estes foram chamados de protestantes. Devido à corrupção e ao excesso de impostos pagos para a Igreja, iniciou-se, através de padres e fiéis, uma grande contestação aos poderes desta. Essa contestação culminou na chamada Reforma Protestante. A principal crítica religiosa dessa reforma – dirigida aos católicos e impulsionada por Martinho Lutero, Thomas Münzer e João Calvino, era a de que os cristãos não deveriam mais se submeter às autoridades religiosas, mas somente às próprias escrituras, ou seja, à Bíblia

No final do século XIX, os imigrantes alemães trouxeram o luteranismo ao Brasil. Já no século XX, diversos missionários americanos fundaram várias igrejas cristãs não católicas, como a Batista e a Metodista. Sua característica principal é tentar converter os indivíduos aos princípios da Bíblia e conduzir suas vidas rigidamente a partir desses princípios.

Os pentecostais são grupos que partilham da espera de uma segunda vinda de Cristo e acreditam ter acesso, no dia a dia, à ação do Espírito Santo, a quem atribuem curas dos males do corpo e da alma.

Note-se que, nos últimos anos, ocorreu um crescimento vertiginoso dessas religiões. Ao longo da História, os pentecostais sempre foram minoria. É somente a partir do final da década de 1970 que começam a crescer em número de adeptos, pois introduzem a concorrência religiosa explícita que significa a exigência de conversão e exclusividade.

Com visibilidade através dos meios de comunicação de massa, as igrejas neopentecostais também promovem grandes cultos e manifestações em lugares públicos, mobilizando fiéis de igrejas localizadas em regiões diferentes. Na foto, a 18ª edição da Marcha para Jesus, realizada pela Igreja Renascer em Cristo, em São Paulo, SP.

Esse crescimento ocorreu princi­palmente entre os grupos intitulados neopentecostais. Estes se tornaram mais “populares” em razão de apresentarem duas diferenças fundamentais, em relação aos pentecostais: o fato de assumirem uma postura mais liberal em relação aos costumes vigentes na sociedade e a adoção da “teologia da prosperidade”. Ou seja, a crença de que a fé e a devoção “verdadeiras” são as responsáveis pela obtenção de ganhos materiais e pela garantia de cura para todos os males da vida.

Ser pentecostal ou neopentecostal no Brasil passou a significar: oposição a ser católico, romper com a religião da família, abandonar a devoção aos santos, interromper ciclos de promessas, em contrapartida, sentir-se escolhido por Deus. A visibilidade dos neopentecostais é devida, principalmente, à sua inserção nos meios de comunicação de massa.

“Fora da caridade não há salvação” – o Espiritismo Kardecista

A Doutrina Espírita ou o Espiritismo, conhecida no Brasil, de uma forma geral, como Kardecismo, é também conhecido por parte da população, em algumas regiões, como o “Espiritismo de Mesa Branca”. Isso se dá por referência à toalha branca que sempre cobre a mesa onde se sentam aqueles que presidem as sessões nos centros espíritas, acompanhados pelos “médiuns”, ou seja, as pessoas que têm o dom de se comunicar com “os espíritos daqueles que já se foram da vida terrena”, fazendo parte do “além”, ou seja, de outro “plano espiritual”. Outra justificativa para o uso do termo “mesa branca” diz respeito a uma forma de diferenciação e oposição aos centros das religiões afro-brasileiras, inclusive pelo fato da sua teologia – diferentemente destas últimas – ter como base de sustentação o Cristianismo.

O Espiritismo se autodefine como, ao mesmo tempo, uma doutrina, uma filosofia e uma ciência, criada na França, no século XIX, por Allan Kardec, pseudônimo do pedagogo francês Hippolyte Léon Denizad Rivail. Kardec é reconhecido pelos espíritas como o codificador da doutrina, ou seja, ele não teria “inventado” nada, mas apenas sido o instrumento da organização teórica que traduziu os “fenômenos espirituais” presentes no cotidiano e que já eram identificados e percebidos por centenas de pessoas. Suas leituras desses fenômenos foram sistematizadas em diversas obras que até hoje servem de referência para todos os praticantes e adeptos do espiritismo – uma delas, inclusive, relê os textos dos Evangelhos cristãos à luz da doutrina, interpretando teologicamente, sob o ponto de vista espírita, a vida e as palavras proferidas por Jesus Cristo.

Cortejo acompanha caixão do líder espírita Francisco Cândido Xavier, o Chico Xavier, em Uberaba (MG), em 2002. Ele era o “médium” mais popular do país, tendo publicado mais de 450 livros, com cerca de 25 milhões de exemplares vendidos – faleceu aos 92 anos.

Apesar do Espiritismo não se definir especificamente como uma religião, pode-se dizer que ele assumiu esse formato no Brasil, sendo praticado por cerca de quatro milhões de pessoas. Uma curiosidade é que seus praticantes contabilizam dezoito milhões de “simpatizantes” no país, ou seja, quase 10% de toda a população brasileira, segundo o Censo de 2010 – um percentual não detectado pelas pesquisas censitárias do IBGE. Esses simpatizantes seriam adeptos de outras religiões (principalmente católicos) ou pessoas sem religião oficial definida, mas que creem na doutrina ou “na vida após a morte”, atestada pela existência dos espíritos. Um exemplo disso seria a grande acolhida popular de diversas novelas de TV, assim como filmes de temática especificamente espírita que foram campeões de bilheteria.

A FEB – Federação Espírita Brasileira – relaciona a existência de cerca de 10 mil instituições espíritas em todo o país. Além dos centros espíritas, centenas delas são voltadas para a prática da caridade, como hospitais, escolas, creches, orfanatos e asilos.

“Libertar os pobres da opressão” – a Teologia da Libertação

A partir da identificação da grave crise social na América Latina, nos anos 1960, proliferou um vasto movimento social de católicos preocupados em melhorar as condições de vida dos povos latino-americanos. Surgiram vários movimentos como a Ação Católica, Juventude Universitária Cristã, Juventude Operária Cristã e as Comunidades Eclesiais de Base. Na preparação da Conferência de Medelín (1968), bispos progressistas orientaram os católicos a uma opção preferencial pelos pobres.

Bispo Pedro Casaldáliga discursa durante o terceiro congresso do Movimentos dos Sem-Terra, no Parque da Cidade, São Paulo (SP), em 26/07/1995.

A partir de 1970, teólogos como Leonardo Boff, Clodovis Boff, Frei Betto, e bispos como Dom Hélder Câmara e Dom Pedro Casaldáliga, entre tantos outros, denunciaram as condições de miséria do povo trabalhador, defendendo alguns princípios:

  • Luta contra a idolatria do mercado, da força militar, da riqueza – identificados como inimigos principais da religião.
  • Uma nova leitura da Bíblia, do momento do êxodo, como modelo de luta do povo escravizado pela sua libertação.
  • Uso das teorias socialistas para entender as causas da pobreza, das contradições do capitalismo e a luta de classes.
  • Opção pelos pobres e soli-dariedade com sua luta pela autolibertação.
  • Criação de Comunidades Eclesiais de Base para organizar o povo em suas lutas, com o seu método político de Ver-Julgar-Agir-Rever. Este movimento foi muito impor-tante na resistência à ditadura militar e contribuiu na formação do PT, da CUT e do MST

“Intimidade com a Santíssima Trindade” – os carismáticos

A Renovação Carismática Católica (RCC) é originária dos Estados Unidos e chega ao Brasil em 1972. Nasce do movimento de leigos no interior da Igreja católica e tem por base os grupos de oração com encontros semanais. Não desejam substituir a vida sacramental, mas complementá-la, ao trazer os participantes para a vida no espírito.

Os encontros se baseiam em: louvor, ação de graça, cânticos, testemunhos e partilhas; encontros nos quais as pessoas cantam, pulam, extravasam as tensões e trocam calor. Também fazem grandes encontros em locais públicos. Para os carismáticos, “ser cristão é viver em relacionamento íntimo com a Santíssima Trindade”.

Um exemplo de manifestação dos carismáticos: “Carnaval de Jesus” promovido pelo padre Marcelo Rossi, em Jurubatuba (SP), em 1999.

O movimento carismático na década de 1990 serviu, no Brasil, como alternativa religiosa diante da diminuição da influência do catolicismo. Começa então, uma disputa pelo “mercado religioso” no Brasil. É a partir daí que podemos entender o grande sucesso de figuras como o padre Marcelo Rossi.

Coisas de brasileiro! O fenômeno do sincretismo no Brasil e no mundo

Um fenômeno social bastante interessante no Brasil é o chamado sincretismo religioso. Este é o resultado do contato social entre povos e grupos, resultando em uma espécie de “fusão” ou “amálgama” de determinadas características distintas desses grupos, referentes a elementos religiosos e culturais. É, portanto, a existência comum de traços culturais e religiosos, originalmente diferentes, que poderiam ser interpretados até como incompatíveis ou antagônicos, mas que acabam se apresentando como um só elemento novo e único.

No caso do Brasil, o sincretismo se dá com o encontro entre negros africanos, índios nativos e brancos europeus. Porém, antes de examinar o sincretismo na religiosidade brasileira, vamos ver como este foi analisado na História.

O fenômeno do sincretismo não foi inventado no Brasil. Ele se origina na Grécia Antiga: dizem alguns historiadores que os cretenses, sempre dispostos a brigar entre si, se uniam quando eram atacados por um inimigo externo, ou seja: SIM + CRETISMO = união dos cretenses.

O jogo dos contatos, a troca de referências, a harmonia entre diferentes culturas.

Ao longo da História, o termo foi associado aos contatos e fusões religiosas e culturais dos diversos povos. Atualmente, no sul da Itália (na Calábria), por exemplo, acontece na semana de Páscoa um ritual religioso que mistura a Paixão de Cristo com rituais de autoflagelação dos antigos gregos.

No caso do Brasil, o sincretismo se manifestou em vários níveis. O candomblé, por exemplo, é o resultado da reelaboração de diversas culturas africanas. Tanto nessa religião, como na umbanda ocorre a realização de um acerto, de um jogo de contatos, uma troca de influências (SODRÉ, 2002). Essas religiões podem ser entendidas como “espaços de resistência”, na medida em que os africanos escravizados e seus descendentes geraram novas formações sincréticas no território americano, todas originais em comparação com as religiões africanas que lhes serviram de origem.

A prática do catolicismo popular também é sincrético como o culto a Nossa Senhora dos Navegantes e a Iemanjá. A mesma imagem representa rituais na igreja e no mar. A festa do Nosso Senhor do Bonfim também se reza a missa e se faz a lavagem das escadarias pelas mães de santo e filhas de santo.

A sociedade, seus problemas e a religiosidade

Como foi dito no início deste capítulo, o que nos interessa é analisar a importância desses grupos religiosos para a formação da sociedade brasileira e como eles interferem na política, na democracia e no exercício da cidadania.

Em relação ao catolicismo popular, podemos afirmar que as classes dominantes no Brasil, principalmente na área rural, utilizaram-se da boa-fé dos camponeses para exercer uma dominação política e econômica. Na década de 1980, foi exibida uma novela que obteve grande audiência na televisão brasileira, intitulada “Roque Santeiro”, escrita pelo dramaturgo Dias Gomes. Nela, o personagem Sinhozinho Malta, um latifundiário (chamado de “coronel”), utilizou-se da crença popular aos santos para justificar sua dominação política no interior da Bahia. Por esse motivo, a novela havia sido censurada durante a ditadura militar. Os chamados “coronéis” diziam que o povo deveria sempre rezar e ser devoto dos santos, pois somente assim alcançaria o paraíso dos céus, pois aqui na Terra há uns que nasceram ricos e outros pobres e não tem como mudar esta situação.

O candomblé e a umbanda, por sua vez, são religiões essencialmente constituídas de negros, apesar de encontrarmos não negros entre seus adeptos. Alguns estudiosos da cultura negra afirmam que, com a necessidade de os africanos e seus descendentes manterem suas culturas no Brasil, houve a reterritorialização de costumes e crenças no espaço dos terreiros de candomblé e umbanda. Era uma espécie de recurso de sobrevivência, pois tratados à base da tortura, do terror da escravidão, não lhes restava outra coisa que não suas crenças, valores, costumes.

Hoje, a sua permanência no território brasileiro, inclusive com expansão, demonstra que, apesar de um mundo globalizado e tecnologizado, essas crenças têm fortes raízes culturais e representam a expressão de resistência e luta contra o racismo ainda presente na sociedade brasileira.

Neste sentido, estas expressões de religiosidade colocam para todos nós que, ou viveremos numa sociedade multicultural, em que todos respeitem as diversidades humanas, ou sucumbiremos aos totalitarismos, intolerâncias e racismos.

O crescimento dos pentecostais não é devido simplesmente à dita manipulação promovida nas mentes dos “ignorantes e pobres”. A partir da década de 1980, eles se apresentam na sociedade brasileira, que vive uma profunda crise social, como agentes que oferecem uma solução para ausência de cidadania e nos fazem entender como alguns brasileiros enfrentam seus problemas materiais e emocionais imediatos.

Cerimônia religiosa na igreja evangélica Bola de Neve (também conhecida como Bola de Neve Church), reunindo 5.000 seguidores, em Perdizes (SP).

Mas quais são os elementos e mecanismos que contribuem para a conversão pentecostal e, por consequência, o seu crescimento numérico? Os principais são: os pentecostais atraem seus futuros fiéis através dos poderosos meios de comunicação que têm em mãos; diferentemente da Igreja católica, há um acesso direto aos pastores; há uma permanente consolação dos aflitos; eles produzem, de fato, uma dignidade cidadã num espaço de pobreza como as favelas, periferias etc.; eles ocupam espaços onde quase não existem instituições como escolas, assistência social, em suma, o Estado; também tornam-se um recurso de recuperação familiar (contra o alcoolismo, contra as drogas etc.) e, por fim, apresentam-se à população mais carente como a alternativa à falta de cidadania.

Outra característica importante do papel dos pentecostais é o fato de retirarem muitos jovens da influência do tráfico de drogas. O interessante é que seu sucesso vem também do fato de que o tráfico perdoa quem entra para a Igreja. Até porque, os pentecostais não querem saber do passado do jovem, eles não representam riscos para o tráfico, pois não vão “dedurar” ninguém.

Por fim, a Teologia da Libertação significou uma nova interpretação do catolicismo na América Latina. O sociólogo Michael Löwy (cf. 1999) descreve que, a partir do Concílio Vaticano II, alguns bispos e religiosos cristãos iniciam um processo de reinterpretação dos preceitos bíblicos em conjunto à adoção de ideias marxistas. O autor afirma que se operou – a partir dos encontros de bispos latino-americanos, em Medelín (Colômbia – 1968) e, depois, em Puebla (México – 1979) – uma preocupação com os destinos dos pobres na América Latina. Este setor da Igreja católica assume a ideia de que os pobres devem se rebelar contra as injustiças e a exploração capitalista.

No Brasil, a expressão máxima dessa ideia se concretizou nas Comunidades Eclesiais de Base (as CEBs). Tais entidades tiveram um papel importante na defesa dos direitos humanos na época da ditadura militar e no processo de redemocratização.

É interessante notar, nas palavras de Frei Betto, a reinterpretação, em termos políticos, por exemplo, da morte de Jesus Cristo. Segundo ele, Jesus Cristo não morreu doente na cama, triste e amargurado. Ele morreu crucificado. Na época do Império romano, quem era crucificado, geralmente, eram os presos políticos, aqueles que combatiam os opressores romanos.

Frei Betto, assim como os demais defensores da Teologia da Libertação, deduz, daí, que é tarefa dos cristãos lutar pelo fim da pobreza e das injustiças, seguindo o exemplo de Jesus Cristo na luta contra os opressores.

A Teologia da Libertação mobilizou leigos e religiosos, tanto católicos como protestantes, em razão do seu caráter ecumênico. Na foto, o sociólogo Michael Löwy, um dos teóricos que procurou analisar a influência das teorias de Karl Marx nesse movimento religioso e político.
Religiosidade, juventude e o novo milênio

Como vimos acima, mais do que a religião em si, a religiosidade é muito importante para grupos e indivíduos. Entende-se por religiosidade uma qualidade do indivíduo que é caracterizada pela disposição ou tendência do mesmo para perseguir a sua própria religião ou a integrar-se às coisas sagradas. Portanto, há religiões organizadas em Igrejas, cultos e outros tipos de instituições e há a religiosidade dos indivíduos. Essa diferença é bem marcante quanto observamos a expressão de religiosidade entre os jovens.

Em pesquisa do Instituto de Estudos da Religião (ISER) de 2001, verificou-se que entre 800 brasileiros, com idade entre 15 e 24 anos, 98% deles responderam que acreditam em Deus. Trata-se de uma grande maioria, capaz de pôr em questão qualquer ceticismo em relação à religiosidade dessa geração de jovens.

Essa pesquisa foi conduzida pela socióloga Regina Novaes, da UFRJ (cf., entre outras obras, o artigo publicado posteriormente em NOVAES, 2005). Para ela, esses números são surpreendentes. Numa entrevista dada ao Caderno B, do Jornal do Brasil, ela afirmou que:

Os jovens estão à procura da religião. Crer é uma coisa que se coloca de uma maneira forte para esta geração. Existem ateus que acreditam em Deus. É uma coisa incrível. Eles acreditam em tudo. (...) todos os itens tiveram percentual alto. Por exemplo: mais de 30% acreditam em orixás, uma taxa muito mais alta do que os que declararam ser do candomblé (1,8%). O que é espantoso é que, entre os jovens que disseram que gostariam de procurar alguma religião (32%), a que mais atrai a curiosidade (32%) é a evangélica, seguida do espiritismo (23,3%). (...)

(...) Os jovens precisam disso. O que se esperava é que, a partir do desenvolvimento da ciência e do avanço tecnológico, estas explicações fossem surgir. Mas isso não aconteceu. As pessoas continuam procurando um sentido para vida e uma forma para lidar com suas angústias e sofrimentos.


(NOVAES, 2001, p.2)

Esta última constatação revela o fato de que os jovens, o tempo todo, estão preocupados com o futuro, querem uma explicação para o sentido da vida.

Para esta geração, o futuro, o mercado de trabalho e as drogas são fatores de sofrimento. A religiosidade ajuda a tornar isto suportável. Diante da competição do mercado de trabalho, que é muito dura e, consequentemente, cria muitas angústias, somente o acesso à informação tecnológica e científica não alivia o sofrimento.

Regina Novaes afirma, ainda, na mesma entrevista, que todas as religiões formam grupos jovens e que isso é muito positivo, pois, é um lugar de trocas, no qual o lazer se associa à religião: “Jovem precisa de turma, precisa encontrar uma identidade. Jovem e isolamento não combinam. Nestes grupos, eles partilham suas angústias e encontram esse sentido para a vida.” (NOVAES, 2001, p.2).

Ao contrário do que aparece no senso comum, e mesmo com as novas tecnologias que seduzem essa nova geração, a religiosidade fornece aos indivíduos concepções sobre a vida, a sociedade, seu passado, presente e futuro, não se restringindo à crença individual, ao culto aos deuses, ou a Deus. Como vimos em Durkheim (1973a), Marx (1960), Weber (1974) e Gramsci (2007), a religiosidade nos orienta a ter normas, regras de comportamento, mas, também, pode demonstrar os interesses de grupos subjugando outros, além de interferir em outras atividades humanas, incluindo a luta contra as injustiças e explorações.

O brasileiro sempre teve na religião um dos recursos mais fortes para manter suas culturas, suas relações com a realidade social e suas lutas por uma vida mais digna.

Religiosidade e política sempre se envolveram mutuamente. Observamos que, na História do Brasil, isto ocorreu com frequência: na resistência dos africanos e seus descendentes para manter suas culturas; no caso da Teologia da Libertação; e, ainda hoje, quando os pentecostais cumprem um papel onde o Estado se encontra ausente, suprindo, assim, as necessidades de muitos brasileiros excluídos.

Como veremos a seguir, quando ocorrem pesquisas a respeito da religiosidade dos brasileiros, os resultados são sempre expressivos, ou seja, a grande maioria declara sua crença:

Como podemos observar em um dos dados apresentados nesses gráficos, a evolução dos “sem religião” cresceu nos últimos 30 anos, mas muito pouco. Essa pesquisa confirma aquilo que dissemos no início deste capítulo, ou seja, o Brasil é um dos países mais religiosos do mundo. Portanto, o desenvolvimento de um mundo globalizado e tecnologizado não significou o fim das religiões e da religiosidade. Pelo contrário, a nova geração de brasileiros demonstra que o mundo tecnologizado e a religiosidade se movem no sentido de descobrir as várias dimensões do mistério da vida e dos níveis de profundidade das perguntas humanas. Isto porque a marca de todas as religiões é o esforço para pensar a realidade a partir da exigência de que a vida faça sentido.

Interdisciplinaridade
Interatividade
Revendo Capítulo

1

Explique a importância da religião para Durkheim, Marx e Weber.


2

Qual a importância do estudo das religiões para a Sociologia?


3

A religiosidade é um fator importante na vida dos jovens de hoje? Por quê?

Dialogando com a Turma

1

Você acredita que algumas lideranças religiosas manipulam de alguma forma os seus fiéis, como de vez em quando denuncia parte da mídia? Realize um debate sobre este tema com seus colegas, a partir das informações contidas no texto.


2

Em sua opinião, considerando as questões apresentadas neste capítulo, você acha possível considerar que no atual mundo globalizado as religiões de matriz africana, como o candomblé e a umbanda, poderão se extinguir? Justifique a sua resposta.

Verificando seu Conhecimento

1

Durkheim, Marx e Weber desenvolveram pesquisas e reflexões a respeito do papel da religião nas sociedades.

Dentre as formulações e conclusões que esses pensadores apresentaram, assinale abaixo a única que deve ser considerada como incorreta:


A

Para Marx, a religião é uma criação humana, relacionada à necessidade que os homens têm de acreditar em algo que alivie o seu sofrimento.


B

Para Durkheim, a religião é uma criação humana e social, sendo importante por estabelecer regras de comportamento que contribuem para a organização da sociedade.


C

Segundo Weber, a compreensão dos comportamentos religiosos torna possível um melhor entendimento das atividades humanas.


D

Para Durkheim, a religião não pode ser negada pela ciência, pois ela é um fato social.


E

De acordo com Weber, o surgimento do capitalismo foi determinante para a mudança nas concepções religiosas a respeito do papel desempenhado pelo trabalho nas diversas sociedades.



2

(ENEM, 2000) Os quatro calendários apresentados abaixo mostram a variedade na contagem do tempo em diversas sociedades.

Com base nas informações apresentadas, pode-se afirmar que:


A

o final do milênio, 1999/2000, é um fator comum às diferentes culturas e tradições.


B

embora o calendário cristão seja hoje adotado em âmbito internacional, cada cultura registra seus eventos marcantes em calendário próprio.


C

o calendário cristão foi adotado universalmente porque, sendo solar, é mais preciso que os demais.


D

a religião não foi determinante na definição dos calendários.


E

o calendário cristão tornou-se dominante por sua antiguidade.



│Pesquisando e refletindo
Livros:

ALVES, Rubem. O que é religião. São Paulo: Brasiliense, 1984. (Coleção Primeiros Passos).

Deus existe? Qual é o sentido da vida? E da morte? O livro responde a estas e outras perguntas, numa linguagem bastante acessível e atraente.

GASPAR, Eneida Duarte. Guia de religiões populares do Brasil: rezas, símbolos, santos, ancestrais, deuses afro-brasileiros, ciganos, histórias. Rio de Janeiro: Pallas, 2002.

Inventário de diversas manifestações religiosas populares espalhadas pelo país, com a descrição de suas principais características.

Filmes:

ATL NTICO NEGRO – NA ROTA DOS ORIXÁS (Brasil, 1998). Direção: Renato Barbieri.
Duração: 54 min.

Documentário que faz uma viagem no espaço e no tempo em busca das origens africanas da cultura brasileira. Historiadores, antropólogos e sacerdotes africanos e brasileiros relatam fatos históricos e dados surpreendentes sobre as inúmeras afinidades culturais que unem os dois lados do Atlântico.

O AUTO DA COMPADECIDA (Brasil, 2000). Direção: Guel Arraes. Elenco: Matheus Natchergaele, Selton Mello, Fernanda Montenegro, Marco Nanini, Lima Duarte, Diogo Vilela, Maurício Gonçalves, Denise Fraga, Luís Melo, Rogério Cardoso.
Duração: 104 min.

A religiosidade característica do povo nordestino está presente nessa comédia que denuncia tanto as desigualdades sociais do sertão, a discriminação e o racismo, quanto as hipocrisias comportamentais da sociedade e das autoridades religiosas. Contribui para a qualidade do filme o desempenho excepcional do elenco. Baseado na obra de Ariano Suassuna.

Conectados na internet e nas redes sociais:

Site RELIGIOSIDADE POPULAR:

http://www.religiosidadepopular.uaivip.com.br/

Página apresentando diversos materiais de pesquisa sobre a religiosidade popular, com artigos, notícias, bibliografia e um Dicionário da Religiosidade Popular. Acesso: janeiro/2016.

Portal ADITAL – NOTÍCIAS DA AMÉRICA LATINA E CARIBE:

http://bit.ly/1aip1wN

Este Portal de notícias apresenta uma seção específica reunindo um clipping de notícias sobre todos os acontecimentos que envolvem igrejas e religiões. Oferece também outros links de interesse sobre o tema, tal como um sobre ECUMENISMO. Veja em: http://www.adital.com.br/hotsite_ecumenismo/. Acesso: janeiro/2016.

Músicas:

PROCISSÃO – Autor e intérprete: Gilberto Gil.

A excelente letra de Gil apresenta uma reflexão política sobre a condição social do sertanejo nordestino e sua religiosidade.

REZA VELA – Autores: Marcos Lobato, Rodrigo Valle, Marcelo Lobato, Marcelo Falcão, Xandão, Lauro Farias. Intérpretes: O Rappa.

A manifestação da religiosidade popular diante da condição social na favela marcada pela realidade cotidiana de violência.

Filme destaque:

IGREJA DOS OPRIMIDOS

Igreja dos Oprimidos

Direção: Jorge Bodanszky

SINOPSE:

Documentário que relata as ações das comunidades eclesiais de base e a Comissão Pastoral da Terra no Araguaia-Tocantins, com inúmeros conflitos violentos entre trabalhadores rurais em situação de miséria e pistoleiros a mando de latifundiários. O filme discute o papel desempenhado pela Igreja católica e pelos seguidores da Teologia da Libertação, entrevistando lideranças rurais e das comunidades, teólogos como Leonardo Boff, e padres que atuam na região, como François Gouriou, Aristides Camio e Ricardo Rezende Figueira.